resenha do livro Da arte das Armadilhas de Ana
Martins Marques
(Cia das Letras, 2011)
Todos nós já fomos presas das armadilhas do amor, e mais vezes ainda
fomos presas das armadilhas da linguagem (as de amor, conhecemo-las de cor).
Quantas vezes nos enganamos sobre o sentido de uma palavra, e mais tarde, mais
crescidos, nos enganamos com o sentido de uma conversa inteira? E para aqueles
que “lambem as palavras e se alucinam”,
quantas vezes fomos totalmente seduzidos, apreendidos por algo lido ou
ouvido, em qualquer idade, e essas palavras se revelaram para nós como uma
porta que continha um mundo inteiro para se passear? Enfim, somos experientes
presas fáceis às armadilhas do amor e da linguagem, mas teriam elas algo em
comum? Essa é a pergunta que faz Ana Martins Marques em Da arte das
armadilhas, publicado em 2011 pela
Companhia das Letras.
Mineira, trinta e poucos anos, funcionária da Assembleia Legislativa de
Minas Gerais, doutora em Literatura na UFMG. Em suma, trata-se de uma
trabalhadora, estudante que, além de premiada, lançou seu segundo livro por uma
das editoras mais importantes do país. O livro de 2011 é seu segundo; antes, em
2009, veio A vida submarina (Editora Scriptum), união de duas coletâneas
da autora, ganhadoras em 2007 e 2008 do Prêmio Cidade de Belo Horizonte. Mas
livros de poesia são feitos, acima de tudo, de poemas, por isso as linhas
seguintes dedicam-se a eles.
Se “qualquer ordem é superior ao caos”, Da arte das armadilhas
também tem a sua. Há um primeiro momento de feitura das coisas, sua nomeação, a
invenção de suas origens e de seus usos; e um segundo momento, feito para
brigar com as coisas, que já não querem os velhos nomes, nem seus sentidos –
buscam outras formas de ser. Esses momentos correspondem às partes do livro; a
primeira se chama Interiores, mais curta, e a segunda é homônima à obra.
Em Interiores, os protagonistas são o mobiliário normal de nossas vidas,
os objetos que conhecemos, usamos e vemos todos os dias. Os poemas sobre essas
não mais do que coisas – como colheres, regadores, xampus e cortinas – são um
esforço para refundá-las, assim reordenando o mundo. Pois renomear, inventar
uma origem ou um uso outro para as coisas reordena o sentido delas, e o que é o
mundo se não as coisas empilhadas e, por cima delas, a experiência que carregam
e que carregamos por conhecê-las? Assim, se renomeado, como poderia o mundo
continuar o mesmo? Vejamos São Paulo, um dos poemas do trio Três
Postais:
são
paulo
Depois de um tempo
todas as coisas ficam
marcadas
como se estivessem
impregnadas de veneno
Há um tempo em que os
lugares
são limpos e novos
abertos como clareiras
mas já não é este o
tempo
Sobre cada lugar se
sobrepõe
a experiência do lugar
como um selo
num cartão-postal
Por exemplo
hoje sempre que
sobrevoo
São Paulo
penso que em algum
apartamento
desta cidade
interminável
você
fumando
de óculos
exerce seu direito
inalienável
de não mais pensar
em mim
[p. 60]
Já o poema Relógio efetua uma refundação onde, para além das coisas, se
discute o tempo, que não se mede pelas horas do trabalho, do compromisso, das
regras sociais, mas sim apenas entre noite e dia, de acordo com a empresa
diária do eu lírico. Então, “de que nos serviria/ um relógio?” pergunta, ao
demonstrar seu tempo feito por signos constituídos por frutas, janelas e
baleias.
(...)
se abres com os dedos
um figo
maduro:
noite
(…)
se esquento em
banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para
limpar os vidros:
dia
(…)
se uma baleia encalha
na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera,
cantando:
noite
(…)
[p. 27]
Aqui identificamos já uma armadilha da linguagem. Ao classificar noite e
dia através do que se faz neles, cria-se uma interdição: a noite não é mais
simplesmente noite, mas uma coisa que só pode existir se acompanhada de outras
coisas específicas. Ou seja, classificar é agrupar e também criar cercas em
volta desses grupos, proibir o encontro de coisas que não estejam no grupo de
que fazem parte. O poema Regador, além de tornar seu objeto um imponente
defensor das flores, tem uma característica recorrente dessa primeira parte: os
objetos comuns estão em condição de limiaridade, nem dentro nem fora da casa;
são canais por onde dentro e fora se comunicam, por isso os objetos podem ser
vistos como antídotos para a interdição, para a imobilidade.
Dentro e fora são temas muito importantes para o livro, pois quem dá nome
às coisas o faz para chamá-las de suas. Nomear também é tornar íntimo, é trazer
para dentro da casa. Dentro é lugar conhecido; fora, o caos não veste nomes.
Dentro, as coisas vêm sob o signo da permanência, não por isso destituídas de
conflito; é um andar por pedras pontiagudas, porém conhecidas. O regador não
impede as flores de morrerem, apenas retarda o fim apontando o sol. Mas ainda
assim elas o esperam:
regador
Num canto do jardim
onde alguém o esqueceu
pronto, ereto, o
regador
aponta para o sol
embaraçadas por dentro
flores rápidas ou
lentas
florem
findam
[p. 21]
E se a primeira parte do livro é criadora e, brincando de deus cartorial,
entrega documentos aos objetos do mundo, na segunda parte um montão de amor
está ao lado de uma corrida atrás do prejuízo, de uma busca pela manutenção e
permanência do mundo antes criado. Amor, lembrança e resistência estão juntos
onde o amor é uma reivindicação, a lembrança é o motor do desejo de
permanência, e a resistência elabora armadilhas contra a mobilidade do mundo.
Trata-se de uma briga do dentro para não ser desordenado pelo fora.
Esse amor é um vício como todo amor: os lugares por onde ele passa ficam
imantados; as mãos “agarram-se às coisas/ soltas/ agarram-se umas/ às outras”
(p. 37) até que chegam as mãos do amado; a luz sobre as fotos traz à tona o
amor como se elas não fossem apenas imagens;
o corpo se transforma e fica mais belo se ao lado do corpo amado. Mas se
o amor se ausenta, tudo isso é lembrança. E pior do que lembrar é não lembrar.
Os vestígios vêm para atenuar o esquecimento, como no trecho de O brinco:
(…)
pode ser
que o meu reflexo sujo
no vidro da lanchonete
seja uma imagem de mim
mais exata
do que esta fotografia
mais exata do que a
lembrança que tem de mim
uma antiga colega de
colégio
mais exata do que a
ideia
que eu mesma
agora tenho de mim
e portanto pode ser
que a moça cansada
de olhos tristes
que trabalha na
lanchonete
tenha de mim uma
imagem
mais fiel
do que qualquer outra
pessoa
(…)
pode ser
meu querido
que esquecendo em sua
cama
meu brinco esquerdo
eu te obrigue mais
tarde
a pensar em mim
ao menos por um
momento
ao recolher o pequeno
círculo
de prata
cujo peso
frio
você agora sente nas
mãos
como se fosse
(mas ó tão inexato)
o meu amor
[p. 80]
Em O brinco, a imagem é já um índice vago; a identidade se descola
do ser a tal ponto que uma desconhecida através de um vidro sujo sabe mais
sobre o sujeito visto do que o próprio sujeito sabe de si, ou do que qualquer
pessoa saberia sobre esse sujeito. Contra esse descolamento entre objeto e
sentido, ser e identidade, entra o brinco, que esquecido providencialmente pode
servir como um reatar de laços toda vez que o amado encontrá-lo. É sobre esse
descolamento entre objeto e sentido que versa o poema Atlas. Nele, o
signo dos selos – apresentado no poema São Paulo como a experiência
decantada por sobre a cidade – aparece mais efêmero, pois nem sempre coisas e
palavras têm uma boa relação, e essas brigas podem terminar em divórcio. As
palavras são comparadas aos selos, e se soltam das coisas:
atlas
sim
carregamos
o mundo
nas costas
o mundo
e as coisas
do mundo
as coisas
e os nomes
das coisas
sim
todos os mapas
e as palavras
como selos
soltando-se
[p. 62]
Mas se nomeamos, classificamos, encontramos sentidos e usos às coisas que
estão no mundo, como deixar que elas simplesmente deixem de ser o que um dia
foram para nós? Aqui é possível atribuir sentidos muito parecidos a amor e
linguagem, pois o que fazemos com quem amamos se não transformá-lo em uma peça
de quebra-cabeça que se encaixa perfeitamente em tudo em nossas vidas? O
exercício de amar é o mesmo exercício de refundação e de invenção do mundo; a
diferença é que o amor ganha privilégios dentre os outros objetos. É como se as
ferramentas para lidar com amor e linguagem fossem as mesmas, e talvez até, se
somados, os objetos juntos (ou seja, o mundo) tenham o mesmo valor que o amor.
Muitos não concordariam, mas o que importa é que ruindo esses dois sistemas, ou
qualquer um deles, dificilmente andaremos leves por aí numa tarde de outono.
Ana sabe disso. Por isso, ao ver a instabilidade desses selos que carregam o
sentido das coisas, lança mão de outra forma de fixá-los, quer costurar os
sentidos às coisas, bordar em cada corpo o que ele significa para manter o
mundo como ela gostaria de vê-lo e de ser junto a ele, afinal “beijos bordados/
não são roubados” (p. 47). O poema Lapso vem para selar nossa conversa,
porque se tudo fosse bordado, seriam tantas camadas e camadas que ficaríamos
pesados, criaríamos carapaças, e sabemos que com o tempo as costuras também se
esgarçam, os sentidos voltariam a cair. A diferença é que, com o repuxar
linhas, ficaríamos, nós também, em frangalhos.
lapso
Como vestidos
costurados
no corpo
deveriam ser
os nomes
e não
selos
meio soltos
etiquetas errantes
peças com
encaixe
um pouco gasto
ou móveis precisando
de um calço
Vê por exemplo
como certas pessoas
ou mesmo algumas
cidades
mudam de nome
por impulso
revolucionário
ou mera vontade vadia
por desejo de
recomeçar
ou exercício de
esquecer
Soturna para Arealva
Porto dos Casais para
Porto Alegre
Campo Místico para
Bueno Brandão
Brejo das Almas para
Francisco Sá
Monte Azul do Turvo
para Monte Azul Paulista
Eu devia
costurar meu nome ao
meu corpo
a minhas roupas
alinhavar por fim meu
nome
em tua boca
para que nunca se
despregasse
da memória
pobre botão
descosido
que
desatenta
(que deusa relapsa
darias
a descosturar
os astros)
trocas
por outro
[p. 58]
Rio de Janeiro 10/06/2013
Heyk Pimenta é poeta, mora no Rio de
Janeiro e é integrante da Oficina Experimental de Poesia
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