Por Marcelo Reis de Mello
Um dos momentos mais polêmicos e
frutuosos no debate sobre o lugar da poesia contemporânea foi, sem nenhuma
dúvida, o lançamento em Portugal do livro “Poetas sem qualidades” (2002) com
prefácio-bomba de Manuel de Freitas, estudado a partir de então como um arauto
dessanova dicção lírica. Poetas sem qualidades são para Freitas (que aí se
inclui) os que escrevem dentro e a partir de um mundo também sem qualidades,
reificado, mercantilizado; aqueles que não negam os influxos da linguagem
publicitária ou da cultura pop, exercendo por via de um coloquialismo
escarnecido as suas agonias urbanas, enfim: os que sabem que sonham sonhos com
códigos de barras.
Tanto Giovani Baffo quanto Thiago
Cervansão também “poetas sem qualidades”. Ambos escrevem nosseus poemas curtos a
experiência da cidade e entendem a escritura como exercício identitário, onde o
lirismo emerge não dos devaneios transcendentes isolados da realidade, mas da
relação direta com as coisas e acontecimentos do mundo, com os livros, as
mensagens publicitárias misturadas aos poemas espirituosos de Leminski, com o
amor difícil dos quartinhos abafados, as palavrasanotadasembaixo desta luz sem
aura dos postes de mercúrio.
Não coincidentemente, os dois jovens
autores publicaram recentemente pelo selo alternativo “Edições Maloqueirista”,bastante
conhecido em São Paulo por quem acompanha a poesia além dos muros das
universidades. Os livros são pequeninos e as tiragens são módicas, honestas,
com projeto gráfico caprichoso do designer Victor Meira. A distribuição ainda é
feita praticamente toda no mano-a-mano, pois os livros não recebem número de
registro.
Nascido em São Paulo no ano de
1982, Giovani Baffo tem dois livros publicados. “Delitos e Deleites” (2010) e
“Pequenos Golpes” (2012). Participa de diversos saraus e é o criador do belo
projeto “Viela en close” nas comunidades pobres de São Paulo, onde reúne
poetas, artistas de circo, músicos, performers e grafiteiros para interagir com
os muros e os moradores das precariamente charmosas vielas. Thiago Cervan nasceu em São Bernardo, no ABC
paulista, em 1985. “Sumo Bagaço” foi lançado em 2012 e é seu livro de estreia. Ativista
político autônomo, Cervan possui uma curiosa formação publicitária, da qual se
vale para praticar sua anti-publicidade pelas ruas de Atibaia, onde vive
atualmente.
Após esta breve introdução, vamos
às obras. “Pequenos Golpes” é uma continuação de “Delitos e Deleites”, o livro
anterior de Giovani Baffo. Daquele primeiro, os muros sujos de São Paulo ainda
guardam em grafite algumas inscrições de delicados poemas, como o célebre “Em
casa / de menino de rua / o último a dormir / apaga a lua” que foi parar até no
programa da apresentadora Ana Maria Braga, da Rede Globo, que leu ao vivo o
poema sem mencionar o autor e declarando seu anonimato, mesmo com milhares de
compartilhamentos nas redes sociais atribuindo a autoria dos versos a Baffo.
Mas, ainda que conheçamos a priori a incompetência
ou má fé da produção desse tipo de programa, o que fica é uma espécie de
reconhecimento do impacto atingido pelo poema, que extrai um lirismo brutal
dessa imagem corriqueira e tão banalizada pela mídia de massa. Giovani vem demonstrara
mesma força no livro “Pequenos Golpes”, onde exercita seu olhar atento e
“malandro”sobre a cidade, com esta enorme capacidade de atingir aquilo que
Denilson Lopes, professor da Escola de Comunicação da UFRJ, chama de “sublime
no banal”. Mas banal não significa ingênuo. E se Mário Quintana escreveu: “O luar,
/ é a luz do Sol que está sonhando”, Baffo vem mostrar que o céu em São Paulo é
diferente:
Brilhava alta
e bela
não era a lua
era só uma janela.
Em noutro poema, “Favela 2”, o
célebre aforismo de Oscar Wilde: “todos nós estamos na lama, mas alguns sabem
ver as estrelas” também é deslocado para um contexto de precariedade material:
Essas vielas apertadas
e sem horizonte
é o que nos põe
a olhar as estrelas...
Depreende-se desse olhar voltado
às estrelas não um alheamento à impiedosa realidade que o oprime, ali, enquanto
caminha pelas vielas apertadas da favela, mas pelo contrário, que esses graves
problemas sociais, ou que a presença constante e incontornável da morte e da
violência leva-nos (o poema está na 1ª pessoa do plural) à necessidade de voltar
novamente os olhos ao céu noturno - este céu que já não sabemos decifrar como
sabiam os antigos – nós, os contemporâneos, os que naufragam sem rumo e sem um
sentido nesta vida entremeadade sofrimento, enquanto o comércio devora as
cidades como Saturno devora seus filhos.
Mas “Pequenos Golpes” também joga
com o establishment do conhecimento,
geralmente usando o humor direto e sem peias de quem não frequenta os salões
universitários:
filó-sofria
A cada mico
um
Acadêmico.
Passeia ainda pelo mundo das
melopeias que sussurra malandra e sedutoramente, através de sinestesias e
assonâncias muito simples, mas de uma ternura indiscutível:
Noite de encantos felinos
assovio entre dentes
samba azul baixinho.
Ou então:
O canto é, a cor da Cigarra
e o vento
tem sua própria jazz band.
Giovani Baffo é bom poeta por
conta da capacidade de observar nas coisas simples uma potência, a latência de
um espanto, e por conseguir quase sempre com êxito atingir a densidade
necessária à concisão. Não há dúvida de que a linguagem do autor ainda não se
realizou completamente, mas também é verdade que a linguagem em si não se
realiza. Vida e escrita são processos sempre abertos. O que vale a pena é observar
de perto de que maneira a poesia de Baffo irá se complexificar com o tempo,
levando seu olhar perspicaz a outras dimensões. Mas que siga sempre admirando
as estrelas por entre as vielas estreitas do mundo.
“Sumo Bagaço” é, como já foi
dito, o livro de estreia de Thiago Cervan. Pode-se dizer também que é uma
pequena compilação de jabs, que na
linguagem do boxe são aqueles socos frontais dados com o punho que fica à
frente na guarda; uma compilação desses versos que, quando ditos nas récitas de
rua, fazem um poeta ser aclamado pelo público. Não é à toa que quando conheci o
Cervan, ele tinha acabado de ganhar um “slam” de poesia em São Paulo. Para quem
nunca ouviu falar, os “slams” são competições poéticas parecidas com as que há
tempos acontecem entre os rappers, ou
mais tradicionalmente ainda entre os repentistas nordestinos, onde, com certas
regras de tempo e de tema, os poetas improvisam e procuram impressionar a
plateia (ou júri popular) para vencer seus oponentes. Existem campeonatos
mundiais dessa modalidade esportiva de poesia falada, e nesse tipo de ringue os
poemas de Cervan são inegavelmente poderosos. Por outro lado, acontece às vezes
de um poema não ser formalmente construído ou lapidado para funcionar na
leitura, e isso se torna um problema quando se trata de um livro. Mas o
importante é frisar que a poesia de Cervané fundamentalmente interventiva e
trabalha muitas vezes com matéria-prima ordinária, desprezada pelos escritores
de verve mais ornamental; o bagaço mesmo das coisas cotidianas. E, no entanto, “Sumo
Bagaço” começa com uma doce epígrafe de Belchior: “Amar e mudar as coisas”,
donde já se pode depreender o duplo olhar do poeta, esperançoso no amor apesar
dos pesares:
máximas
galáxias
mínimas
delícias
mãos lambuzadas
com doces carícias.
Além disso, o humor está presente
em quase todos os poemas do livro e traz um pouco dessa dimensão de quem não se
vê fechado em uma repartição, mas buscando brasileiramente uma proposta menos
sisuda para a realização da vida. Contagiados por esse humor, podemos imaginar
o poema voando ebriamente pelos ares, como um mosquito. E então ler:
O som do mosquito
quebrou o vidro
do nosso silêncio
até então
infinito.
E na sequência:
a planta
antes muda
grita
de cor
O enquadramento é no
plano-detalhe, enfocando o bagaço mínimo para dele espremerseu sumo. E se não
há grandiloquência, há uma eloquência contida e uma inteligência delicada que
nos leva a sorrir com o canto da boca. E pra quem é da rua, umas ganas de fazerestêncil
e pixar num muro branco:
dó maior
é ver o sol menor
lá
no fundo de si.
Mas também há no livro poemas
escancaradamente piadísticos, já que a ideia de Cervan não é adular o gosto
fino, mas desafinar o mundo burocratizado dos “reaças”, a quem ensina: “A
pós-graduação da vida é a morte”.
Assim, entre um ou outro
trocadilho infame, piadas assumidas e algumas imagens muito bem construídas
sobre a vida na urbe, começaa dar os seus primeiros passos com o pé direito
(indo sempre à esquerda, claro) este jovem poeta do ABC. Quando começar a
abandonar os caminhos mais fáceis e encontrar na potência da sua linguagem a
densidade que em Giovani Baffo já aflora de uma forma mais bem resolvida,
certamente virão frutos mais suculentos; um sumo ainda mais sumo desse bagaço
de vida entre um trampo e um rolê, uma borrachadados canas e uma cerveja com os
amigos.
Estes são dois dos “poetas sem
qualidades” de São Paulo que não encontram muito espaço nas academias, mas que
no “mangueio” da luta diária mostram outros valores da poesia que os
formalistas encastelados nos salões nobres acabam esquecendo-se de avaliar.
Porque existe sim uma demanda por poesia nos meandros menos prováveis da cidade
grande, e num botequim ou numa oficina pode haver mais vida e curiosidade pelo
poder encantatório das palavras do que numa sala de aula. É preciso estudar
cada vez mais para ser cada vez mais simples, e disso eles sabem muito bem.
Sabem que é preciso fazer incisões na pele do mundo para que ela se abra em
linguagem, porque como escreve Cervan em seu primeiro livro: “meu poema / em
língua desconhecida / ainda não foi feito”.
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