Abrindo a série de três poemas que faremos com todos os participantes, integrantes da Oficina Experimental de Poesia:
em via
para Khalil
ao viandante
idos os mapas
idos os mapas
a bússola
o astrolábio
resta
a velha nau
se o corpo
encouraçado
nada abarca
se o amor
em costas
em costas
d´areia
vaga
(onde descaminhos
onde sortilégios...)
ao viandante
resta a voz só
suster-se nela
- os braços
- os braços
pesam ocasos
insubmersos
a noite
n
ave
ave
em
meio
meio
não será preciso
velar
irá por si
ultraleve -
irá por si
ultraleve -
em queda
livre
bons conselhos
se queres vender tua arte
não botes tanto a cara
saca o teu da reta, anda em ziguezague
Rimbaud que bobeou
de se mandar pra África
teria feito ouro
de sua alquimia
(bancado vagabundos,
piscinas de absinto)
não fosse a morte bela
tão boa empresária
veja Lima Barreto
filho de um liberto
versado na Lapa
foi zombar dos picaretas
que fazem escola no Rio de Janeiro
e ganhou residência fixa
e ganhou residência fixa
no hospício da Praia Vermelha
se queres vender tua arte
não ponhas tanto a fuça!
faça feito Machado
que aderiu ao pó-de-arroz
e não quis mais inimigos
que os cupins da biblioteca
se bebes e não portas navalha
pendura!
tudo paga com tua simpatia
só não queira adoçar
o pelotão de choque
com cantos da Ilíada
nem com redondilhas
do imponderável
quitar o aluguel.
o sol invade
reabrem bocas cortinas resmas
em toda porta o gongo metálico
inútil torcer as maçanetas
se o dia é fórum inadiável
armado ao coro de britadores
procede ao banho e defecação
restos de ontem ao mar estômago
e força dos que devem a carne
a cidade – cega arquitetura
feita de gás e milhão de olhos
raramente não ilhas de súbito
dão para o acaso mapas e nomes
cedo (o fiscal de sombras devassa
trincheiras de sonho sob as pálpebras)
vigas como raízes ou lanças
suspendem corpos
entrechocados.
Guilherme Gonçalves (1983)
é escritor, professor e pesquisador carioca. Formado em História, leciona em
colégios desde 2008. Integra o programa de doutoramento em Ciências Sociais
pela PUC-Rio, no qual pesquisa a relação entre arte e cidade. É professor
na oficina de escrita “Turista Aprendiz”, realizada nas Bibliotecas Parque
estaduais da cidade. Participa da Oficina Experimental de Poesia, que promove o
estudo e a produção de poesia em encontros semanais no bairro do Méier.
Publicou artigos coletâneas acadêmicas, como a Cadernos PUC, e poemas em sites
como o da Revista Cult. Foi premiado com 2º lugar no IV
Prêmio Paulo Brito de prosa e poesia e pelo concurso Sesc-DF de poesia de 2013, constando entre os autores da coletânea publicada em 2015 pela editora Sesc.
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