sábado, 17 de janeiro de 2015

Série 3 Poemas: Guilherme Gonçalves


Abrindo a série de três poemas que faremos com todos os participantes, integrantes da Oficina Experimental de Poesia:



em via
para Khalil

ao viandante
idos os mapas
a bússola
o astrolábio
resta
a velha nau

se o corpo
encouraçado
nada abarca

se o amor
em costas
d´areia
vaga
(onde descaminhos
onde sortilégios...)

ao viandante
resta a voz só
suster-se nela

- os braços
pesam ocasos
insubmersos
a noite
n
ave
em
meio
não será preciso
velar
irá por si
ultraleve -

em queda
                                     livre


bons conselhos

se queres vender tua arte
não botes tanto a cara
saca o teu da reta, anda em ziguezague
Rimbaud que bobeou
de se mandar pra África
teria feito ouro
de sua alquimia
(bancado vagabundos,
piscinas de absinto)
não fosse a morte bela
tão boa empresária

veja Lima Barreto
filho de um liberto
versado na Lapa
foi zombar dos picaretas
que fazem escola no Rio de Janeiro
e ganhou residência fixa
no hospício da Praia Vermelha

se queres vender tua arte
não ponhas tanto a fuça!
faça feito Machado
que aderiu ao pó-de-arroz
e não quis mais inimigos
que os cupins da biblioteca

se bebes e não portas navalha
pendura!
tudo paga com tua simpatia
só não queira adoçar
o pelotão de choque
com cantos da Ilíada
nem com redondilhas
do imponderável
quitar o aluguel.


o sol invade

reabrem bocas cortinas resmas
em toda porta o gongo metálico
inútil torcer as maçanetas
se o dia é fórum inadiável

armado ao coro de britadores
procede ao banho e defecação
restos de ontem ao mar estômago  
e força dos que devem a carne

a cidade – cega arquitetura
feita de gás e milhão de olhos     
raramente não ilhas de súbito         
dão para o acaso mapas e nomes        

cedo (o fiscal de sombras devassa
trincheiras de sonho sob as pálpebras)  

vigas como raízes ou lanças
suspendem corpos entrechocados.



Guilherme Gonçalves (1983) é escritor, professor e pesquisador carioca. Formado em História, leciona em colégios desde 2008. Integra o programa de doutoramento em Ciências Sociais pela PUC-Rio, no qual pesquisa a relação entre arte e cidade. É professor na oficina de escrita “Turista Aprendiz”, realizada nas Bibliotecas Parque estaduais da cidade. Participa da Oficina Experimental de Poesia, que promove o estudo e a produção de poesia em encontros semanais no bairro do Méier. Publicou artigos coletâneas acadêmicas, como a Cadernos PUC, e poemas em sites como o da Revista Cult.  Foi premiado com 2º lugar no IV Prêmio Paulo Brito de prosa e poesia e pelo concurso Sesc-DF de poesia de 2013, constando entre os autores da coletânea publicada em 2015 pela editora Sesc.

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