terça-feira, 24 de março de 2015

Poemas do eu a dentro | Proposta de exercício do mês de março

Nesse mês de março, Marcos Nascimento e Carolina Turboli deram o mote do nosso exercício de escrita. Pediram pra levarmos espelhos, nos reuniram em grupos de três pessoas e a proposta foi escrevermos um texto sobre a nossa autoimagem, outro sobre o que achamos que os outros veem de nós, e um terceiro que fosse o resultado da vivência a três e das miradas coletivas ao espelho. Confira o enunciado, teste em textos e nos mande os resultados. Mês que vem tem mais.

Teste do espelho | Marcos Nascimento & Carolina Turboli
A ponte que guia o que nós pensamos de nós e o que os outros pensam sobre nós cria o que reconhecemos como o famoso e truncado “eu”. A conexão do nosso olhar particular e o olho social que vigia fabrica a noção das pessoas a partir do observar, criando mensagens cifradas que se somam ao nosso pensamento a respeito de quem somos. A auto percepção e a interação social brincam de nos dar novas personas enquanto tentamos achar o que poderá ser o Eu real.
Sartre colocou que “reconheço que sou como o outro me Vê”.
Rimbaud escreveu “Eu é um Outro”.
Se a total fusão desses dois questionamentos pode nos ajudar a compreender o embate que vivemos o tempo todo dentro de uma sociedade que nos indaga desesperadamente um perfil único e fixo para que possam nos manejar mais sutilmente, também existe a possibilidade de que essa fusão venha como forma de não-entendimento, como simples maneira de interpretar a si mesmo em situações opostas, sem a necessidade que uma delas seja a verdadeira e as outras falsas, a vida é a suposição da liberdade e o “to play” shakespeariano é o teatro crível, com os erros e jogos de criação.
Lacan em um de seus estudos mostrava como o fato de se olhar no espelho faz com que vejamos além de nós, vejamos também o outro, o corpo subjetivo, refletidos em conjunto ao confrontar a nossa imagem.
A superfície do espelho te mostra e te oculta, agiganta teu ego ou o apequena.
Sob a lente de teu reflexo você constrói novos eus ou depura todas as facetas até achar apenas uma?
Existirá a tal fidelidade a si mesmo, como falava o poeta Vinicius ou seremos grandes traidores por mudarmos conforme o ângulo de visão?
Pode ser uma bobagem querer ser um só se nós podemos ser tantos.
Se teu olho vibra e produz um brilho que não é semelhante ao meu, porque querer igualar nossos olhares? E é justamente o nosso olhar sobre determinado objeto ou indivíduo que vai modificá-lo e trazer empatia ou rejeição ao nosso fator de identidade.
Vamos nos olhar no espelho, fazer caretas, medir o comprimento de nossas sobrancelhas, cutucar o nariz e ver o que sai de dentro. Abrir a boca e contar as cáries e escrever sobre a nossa boca grande, nosso olho cego e nossa cara torta. Criaremos textos que inaugurem mais um novo indivíduo, que ainda não tínhamos reparado mas que carregamos pra lá e pra cá.

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