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| Gaya Rachel, 2015 |
A primeira vez que vi um conjunto de trabalhos reunidos da
Gaya Rachel foi em agosto de 2015, quando ela apresentou parte de sua pesquisa
acerca de algumas lendas do interior do Brasil. Eram telas enormes, que
lembravam bandeiras, reelaborando, em cores áridas, instantes dessas
narrativas, como o serpentear do Boitatá, ou o chamado da Kaapora.
De lá pra cá, descobri que Gaya escreve, pinta, atua, embora
ela sempre pareça estar me dizendo que “gostaria de fazer” essas coisas, como
se não as fizesse. Quem conhece a artista, talvez tenha essa impressão: de que
o que Gaya faz, na verdade, todo o tempo, quando escreve, quando pinta, quando
atua, ou quando conhece alguém, é brincar.
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| Gaya Rachel, 2015 |
Há algum tempo Gaya tem brincado conosco na Oficina Experimental de Poesia. Ela aparece nos encontros munida de material plástico, e, enquanto nos limitamos, alguns de nós, de certa forma, à palavra, Gaya opera com seu mundo mais colorido.
O que surgem são essas aquarelas cheias de camadas. O que é
impressionante é que a todo momento as pinturas de Gaya parecem recomeçar o
trabalho. Estão sempre partindo do zero, de acordo com o ponto em que fixemos a
vista. As cores se interrompem bruscamente, os espaços vazios são descontínuos
e inauguram o semblante de pessoas, os objetos obedecem cada um a uma escala.
Essa técnica se assemelha ao exercício do jogo: também os jogadores devem sempre
recomeçar do zero, a cada rodada. E cada jogo contém suas próprias regras e
critérios (proporções), e interrompem-se, embora façam todos parte do universo
da jogatina; graças a isso tanta gente tem realçado a analogia entre o universo
da arte e do jogo. Gaya nos mostra isso com alguma clareza.
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| Gaya Rachel, 2015 |
Por outro lado, essa mesma técnica tem como resultado um
arquivo paleontográfico: estamos diante de documentos temporais organizados de
acordo com suas camadas históricas. Os textos sobre as pinturas, muitas vezes
citações de conversas e poemas que circulam na Oficina, funcionam como as
anotações a partir das quais a paleontógrafa deve partir para acessar o
conteúdo histórico. Nesse sentido, a técnica de Gaya Rachel eterniza o
transitório dos instantes que captura – resultado um tanto improvável se a
técnica almejasse uma representação realista e/ou contínua desses instantes.
É claro que essa é uma apresentação um tanto descontínua, ela
mesma, da própria Gaya. Muito ainda poderia ser dito nesse sentido. Há meses,
Gaya sofre de uma estafa fora do comum. Ainda assim, está sempre fazendo
coisas, com cara de quem brinca. Atuou recentemente em Panidrom, representando
uma criança, Zoé. O ano mal começou e pensa em vender sacolé de cachaça no
carnaval. Desobedecendo as evidências do corpo, que pede descanso e queima as
reservas de energia, fez uma viagem um tanto longa, e filmou vagalumes. As
lampadazinhas acendiam com muita luz, e apagavam constantemente, como se
estivessem cansados também. Talvez Gaya tenha uma dessas lâmpadas que ficam
brilhando cansadas nesses insetos.
Rafael Zacca
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| Gaya Rachel, 2015 |




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