Adiron Marcos foi seminarista, é multi-instrumentista e poeta. Ele não tem medo dos seus pares, não teme por andar com Cruz e Souza ou Ledo Ivo. Não teme usar maiúsculas e inventar palavras sacras. Cada poema de Adiron merece atenção e neles podemos morar dentro, é como se ele desse as regras de um jogo ou o argumento de epopeias, é um poeta que trabalha atento e delirante na construção de um reino santo e caboclo e sempre clássico. Porque todas as mandingas são clássicas. Se lidos em voz alta, os poemas ganham força, seu ritmo é essencial às imagens. Em 2014, a editora Oitoemeio lançou o seu O livro das acontecências, feliz surpresa para os leitores, e como todo bom livro já pode ser comprado em sebos. Fique com três poemas desse fagotista e leia outros em Dois Tantos de Coisas
Heyk Pimenta
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Soneto nº 124
(Muriliana, nº 1)
A manhã suspende os guizos da noite,
atrás de cortinas Azuis. Murmura
o gênio do bosque: roseiras dão-se as mãos,
vento despenteia as nuvens.
No lago próximo peixes movem as antenas
pra me escutarem. Pássaros bebem o
sol, devolvem oboés aos meus ouvidos,
os bichos do campo fiam minha roupa.
Preparo a mesa do Hóspede aos meus
irmãos, erês-Anjos. Três estátuas em
pedra-sabão trazem lá de Congonhas
um grande abraço do Aleijadinho____
a manhã suspende os guizos da noite:
girassóis retomam sua dança Antiga.
(Versão soneto, nº 122. Pro Augusto Guimaraens Cavalcanti)
Então que ainda me Existo
sob essências de pedra. Aquela nuvem distante,
os corvos em Tel-Amarna,
trigo nos estômagos do homem.
Cinquenta e seis dias fui Balaão no deserto,
eram de areia as palavras.
Primeiros deuses foram estátuas de Sal,
sob crepúsculos ainda jovens
do grande Eufrates. Houve tardes, manhãs.
Inda me Existo defronte aos Áquilas de ferro.
Areias presas em relógios
me lembram pássaros-Bronze_____
devo Existir até que o Sopro dos Três
complete o Livro dos Dias.
Primeira Gira de Março
(À memória de Arthur Bispo do Rosário. Pra Danielle Ronald de Carvalho, e pra Liv Lagerblad)
Tez cerzida em cangarelhos de encontrôs Cabindas,
múltiplos Armagedons, Urupuçás e mais xangôs do Infinito,
assim teceste o Manto da Apresentação
sob encomenda dos Três_____
sopraste hálitos incandescentes de xeréns-Dragões
nas quarenta mil perguntas sobre o final
dos Tempos, o Trono Branco de ingás-Neutrínios e
os Condenados em jongôs nos Quintos,
Japaratubas que novamente descerão do Sergipe
quando julgares vivos e mortos, como disseste aos basbaques
nos torreões de São Bento...
cinquenta invernos despentearam as árvores de Jacarepaguá
enquanto lá fora os homens dividiam o átomo
e soltavam corvos nos trigais do Hóspede: tu, ao contrário,
dos gurundús e gramachos erguias com remeleixo de monge
um Constelário de zabelês dos mais Chibantes*
já vistos neste mundão Roncolho, pra gáudio
da Virgem Branca______
quando por fim descansaste, e cavalões migradores
choraram tua morte num desembêsto pelas planícies da terra
Geraldo Erê-Viramundo te envolveu num carinhoso abraço quando adentraste
as Alturas, enquanto anjinhos de calça larga e gravata borboleta
fuzarqueavam um Batuque, aquele mêrmo____
que a chata da sinhá num queria
na cozinha dela.
(Escrito em 1° de março, aniversário de 450 anos da cidade do Rio de Janeiro)
foto de Ulisses Nogueira


Poema pra falar em voz alta! Abx, Adiron!
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