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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O que tem feito, Pedro Rocha?


“Heyk, o computador tá um pouco confuso pra organizar os poemas, me passa seu endereço e envio pra você pelo correio.” Gostei. Receberia uma carta de um poeta que mora na mesma cidade que eu. Chegou, mas não pelo correio. Pedro levou os poemas em um envelope ao morro da Conceição no último sábado, falaríamos poemas n’A Mesa. “Heyk, o correio me mandou entregar pessoalmente. As filas estão imensas, porque, segundo disseram, agora tudo se faz no correio.” O envelope tinha meu endereço e o dele. Três folhas datilografadas e carimbadas, três poemas, um deles batido só com as teclas da máquina, com força, sem tinta, cada letra marcando e quase furando o papel.
“Quer mexer com o espaço branco do poema? Procura o Pedro Rocha!” Me disse o Guilherme Zarvos em 2007. Pouco depois vi o livro 11, estreia do Pedro, de 2002, na Azougue Editorial. E pedi um exemplar ao Sergio Cohn. Desde então, nos encontramos por aí, pensando, confabulando, achando bonito. Veio Chão inquieto (7letras, 2010), ele e Ericson tinham lançado seus livros juntos. Ericson. Experiência do calor (Lábia gentil, 2014) corre por dentro dessa morte, que Pedro e muitos outros sentiram na pele.
Figura histórica da primeira fase do CEP 20.000, o poeta manda correspondência, gira mimeógrafo, bate máquina, fez a Cartonera Caraatapa e também edita, junto com Pedro Lago, o selo Lábia Gentil, da editora Dantes.
Fique com três poemas e os respectivos comentários do próprio autor sobre cada um deles. Um dos poemas foi um pequeno terrorismo feito no instagram; outro, se transforma, traduzindo-se, em poema objeto; e o último, o tal feito só com a força, sem a tinta, glosa sobre quando o poeta percebe que algumas coisas o poema não salva. No fim, sem responder à pergunta, Pedro contou, com poemas e parênteses, o que tem feito.

Heyk Pimenta 

Ação sem título

            Um Poema
                        cabe
                         abre
                    invade
            qualquer plataforma

pois é ele quem se suporta

            ele se apóia em
            toda superfície
                e mesmo em
                  nenhuma

Quanto mais estranha
          o poema aranha
                        tece sua
                               web

 quão maior o
            avesso

o poema atravessa

como nessa
           fresta de possível

Tá tudo indo
do jeito que dá

mas ele está sempre ali
                             ele tá lá

pode ser duro de
                 abrir

mas é a única parada
que não vale
a pena de
              desistir.

(esse poema foi publicado como comentário em algumas fotos de algumas contas do instagram. Eu ia distribuindo os versos, de baixo pra cima, cada um numa foto, para que ficasse inteiro na aba de alerta para o titular da conta.
Fiz isso até que o instagram me mandou uma mensagem avisando que eu não poderia continuar com a minha pesquisa, brincadeira, experimentação, ação... mas tá lá, nalgumas fotos, muitas...)

PALEANTROPÍDEOS & FUTURISMO

            Gostaria de que
             quando for que
                      eu morrer
           
            meus amigos me peguem
                        meus restos
                          e constru-
                                   am
                                      um
                           objeto com
                                     eles

            que meus ossos sejam
                        material de imagem

            e que fosse isso cedo

(esse poema está, nesse momento, tentando resolver um problema de comunicação e de linguagem e de continuação. Alguns amigos poetas se dispuseram à tarefa de traduzi-lo para seus idiomas estrangeiros, tentando guardar o problema, conversar a dificuldade de pôr na norma um pensamento objeto. O pensamento é antes de ser texto, um objeto prenhe de subjetividade)

     aquele corpo
                calado

   O MAR POR DENTRO
            aquele      cacto

   O MAR POR DENTRO

  vamos à praia criança

   O MAR POR DENTRO

deitado à beira mar

   O MAR POR DENTRO

a mão de onda tenta
                        ainda
     despertar o menino

   O MAR POR DENTRO

passa-lhe suave pelo
                        corpo

   O MAR POR DENTRO

seus trejeitos de
                        água
despertá-lo de onde?
   a onda não sabe

   O MAR DENTRO

(esse poema forçoso, tentando ser algum fazer diante de um mundo de geste em deslocamento. Tentando estender uma mão, criar um trecho de terra, de ajuda, de qualquer coisa, gesto, justo, junto... e não conseguindo!
Não há como resolver algumas coisas num poema, ou me sentiria muito estranho, construindo, escrevendo um bom poema motivado por essa realidade.
Fica algo que não sei nomear. O esforço. A incompetência. Constatação.
O pouco que parece. Esse poeta não serve pra tudo.)

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

3 poemas | Liv Lagerblad

foto da artista

Liv Lagerblad é carioca, artista visual e poeta. Passou a fazer parte da oficina nesse ano, contribuindo com os debates e conduzindo exercícios de criação. Produtora voraz, a artista diz escrever para organizar a vida. Um poema para começar o dia, assim ela faz. As coisas encontram seus lugares e ela segue. Liv estreou nos livros no ano passado, publicando 10 poemas em edição artesanal pela coleção Kraft, da Editora Cozinha Experimental. Lançamos juntos os livros do dia de seu aniversário. Como ela disse, é bom ter irmãos de começo. A editora campineira Urutau prepara um segundo volume dos poemas da poeta, ainda para esse ano. Conheça três dos seus poemas. 


deixe-me ir,  preciso andar
abre uma clareira entre as árvores
rebenta um galho e cai no meio da clareira
apontando para o norte
os jornais de direita parecem amistosos
com um governo de esquerda, agora
ele me fala do capital intacto, que dó.
Tínhamos que sangrar o capital com navalhas
e seu sangue de imenso porco
tinha que escorrer pelas ruas, e nas ladeiras
assim como no dia do acidente de ônibus
em que um motorista passou pela rua itaperu
a duzentos quilômetros por hora e tombou
no hospital não se podia andar na rampa
o calçado deslizava no sangue
assim queria o capital
era assim que você veria:
um porco imenso de sangue prata

à nossa mesa – sangrando vil metal

**


XXX

quero datilografar o impossível em tua máquina-corpo
quando dedilhas o ar ou meu corpo funcionando em tua
máquina-corpo : viva os meios todos porque hoje amor
eu sonhei com você de novo. era grotesco mas era doce
esse nosso meio de percurso – brusco o começo – estive
fora. um vazio com olhos. depois dentro. oco enevoado
vivia no arcabouço  de  minhas imagens e sentidos e lá
você não habitava – como antes e depois – meu mundo

queria ter te dito essa manhã que a tradução do poema
de mandelstam eu li e não gostei, falava do stalin com:
“brinca com os serviços de meio-homem” e repeti isso
em sequência, até fazer sentido. hoje sonhei com você
e depois discutimos ao telefone. e no meu silêncio me
ocorreu chamar-te meio-homem pra te emputecer mas
você nunca leu esse poema ou o leu faz muito... talvez
você tenha lido outra tradução desse poema, e sei que
meu tiro iria sair mal, não iria surtir o efeito desejado
o que eu pretendia, quando imaginei dizer e não disse.

Xxx

**

microcena permutável:

você diz:
1 – “a mão é o novo centro do corpo”
2 – “o centro do corpo é sempre o sexo”
3 – “é preciso dissolver os centros”

eu olho:
1 – uma revista nova
2 – um maço de marlboro vermelho
3 – teus olhos. (piscam e lacrimejam de cansaço)

você diz:
1 – “a arte foge à praxis vital”
2 – “a instituição arte é uma sanguessuga de intuições”
3 – “por trás do olho é tudo mais sólido agora”

eu digo:
1 – “tamanha a flacidez da mente, nesses tempos em que me sinto na engorda, antes do abatedouro”
2 – “antes de tudo temos de definir parâmetros, estou armada com minhas dúvidas”
3 – “só consigo entender isso se filtrar cada palavra com a minha violência”

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O que tem feito, Renato Rezende?

foto de luciana lopes

"Não tenho escrito muito. E muito menos ainda poesia. Acho que poesia é coisa de mulher. E agora sou um homem. Um homem que envelhece. Pelo menos, por ora."

Essa foi a resposta de Renato Rezende à pergunta da Oficina. A sessão "O que tem feito?" trará notícias e poemas recentes de autores que já passaram pelas nossas sabatinas. Poeta, crítico, curador, tradutor e romancista paulistano, Renato ganhou duas vezes o Prêmio Biblioteca Nacional com os livros Passeio (Record, 2001) e Ímpar (Lamparina, 2005), depois de ter passado pela Índia, Estados Unidos e se fixado no Rio de Janeiro ainda nos anos 1990. O poeta investe seus saberes há alguns anos nas artes plásticas, publicando, escrevendo e por vezes sendo ele também artista, como é possível ver em obras como My heart in Rio e S.O.S Poesia. Inaugurador do termo "poesia em campo ampliado", adaptado da máxima de Rosalind Kraus "escultura em campo expandido", Renato apaga as fronteiras entre escrita, arte e vida se tornando um dos mais versáteis e polêmicos pensadores brasileiros. A oficina estudou o livro Noiva (Azougue, 2008) em 2013, que você pode baixar clicando aqui. Ficamos agora com três poemas inéditos do autor, que, depois de ter sido noiva, louvando o entre-lugar de quem espera, agora enuncia-se homem. 

Heyk Pimenta



MONSTRO


Não importa se na forma de um poema ou não.

Ou importa?

O conteúdo é a forma?

Viver a alteridade radical – ser um outro –
foi o desejo da minha aventura humana. Hoje

eu mesmo sou o Outro.

Aventuro-me a ser esse Outro, quem sou:

cedo às exigências que sobem do meu corpo;
respondo ao que considero ser
as demandas das minhas entranhas;
preencho-me de minha própria história, como se ela desse a forma

do que desde sempre fui e sou.

Sólido e denso agora

como um touro obedeço
ao que está escrito

na carne dos mamíferos

nos astros?

Engordo e envelheço
como todos os porcos, como todos os bichos.



AMÊNDOA


a ferida cicatrizada forma um caroço
 que se guarda no corpo
como um troço na garganta

incomodando

sem conseguir ser cuspido: um cancro

uma amêndoa apodrecida

escura por dentro,
meio esterco

coisa suja orgânica
catarro, coriza
sangue de chouriço

um banzo

fruto dos fracassos a serem transmutados

contra a velhice

a mística
a escrita

                                                                                  não valem nada

esse topázio,

essa granada.

  
TEMPO DE SATURNO


Mais uma vez – a terceira ou quarta em quase cinquenta anos
de vida ganha e perdida neste planeta, procurando ao mesmo tempo alçar voo
e deitar raízes,
adaptar-me, ganhar forma e sentido, como um pássaro
de outro continente,
ferido, perdido
em pânico, 
entre exitoso e falho
me emociono diante da Fontana di Trevi:

Fonte de águas claras, e fonte de lágrimas
nos olhos do meu rosto.

Quase cinquenta anos – e o velho
e novo Netuno, como se fosse eterno, no entanto,
como em nenhum outro lugar
no espelho cego
no espelho cego de tão iluminado, dessa fonte
acena ainda com suas promessas de amores.

Do outro lado, do outro lado da fonte, do muro, do outro lado de Roma, está o Paraíso.
Mas lá não há nada. Sei que seus portais jamais se abrirão. Apenas

uma emoção que eu ainda desconheço, plantada na minha carne,
como uma saudade de mim mesmo;
(eu, que desconheço quem ou o que sou, e que nunca saberei.
Eu, que um dia talvez tenha sido, sem sabê-lo, sem ser nunca quem era.)

Netuno na fonte suspira o aceno da redenção,
com suas Vênus e Afrodites, algumas encarnadas
em minha vida, e por elas agradeço e sorrio, e triste
sem saber por que, sem me dar conta, entre discretas águas, nomeio
todas as mulheres que amei, todos os encontros que sempre foram promessas
e porque apenas promessas, encontros infinitos

na Fontana di Trevi, num trem de Florença a Montepulciano, numa excursão ao Vesúvio,
diante da bancada de peixes da feira de Laranjeiras,
num refrigerador às 3 horas da madrugada num mosteiro no interior do estado de Nova York,
numa encruzilhada de jardim na Índia,
no pátio de uma escola num bairro de classe média de São Paulo há 40 anos,
na porta de um teatro alternativo de Curitiba,
na cafeteria do Museu de Arte Moderna de São Francisco...

Agora sei que o máximo a nós permitido é apenas isso: contemplá-lo
na forma de Netuno emergindo dos oceanos, jorrando as águas cristalinas
e afrodisíacas, absinto, ambrosia, exigindo
de nossos pobres corpos e mentes que envelheçam com comedimento
nossos pobres, glorificados corpos perdidos nas fronhas do tempo,
para sempre deste lado do paraíso
na grande e pequena plataforma do possível.

Mas para chegar aos cinquenta deve-se muito a Cronos, e nesse mesmo dia
de que é feito a vida no planeta, em giros
e em meio as ruínas do Fórum romano
o que restou do templo de Saturno me diz algo sobre fantasia
e sobre o corpo das meninas
que como alegoria se transfere para toda metafísica,
e sem rimas ou floreios,
sem metáforas, sem rodeios, sem poesia:
quando enfim metemos a língua em seus orifícios
o gosto é sempre o mesmo.

Templo de Saturno, de joelhos, humilde:
peço-lhe apenas as bênçãos para viver aqui,
envelhecendo com um mínimo de bom senso.

domingo, 9 de agosto de 2015

Nota sobre "Os ilhados" de Ismar Tirelli Neto


Ismar Tirelli Neto já lançou três livros de poemas. Os ilhados é o terceiro, lançado em julho pela editora 7Letras, dele vieram os dois poemas abaixo. Em “Autorretrato a partir de uma praça”, aparece algo da comunicação matérica e constatatória que é possível ler em Nuno Ramos e Eucanaã Ferraz. As palavras, como todos já sabemos, são insuficientes e em dados momentos percebemos que só as coisas falam por si de forma plena. “A dado objeto,/ reage-se às vezes com o próprio objeto,/ mais nada. Repetir uma praça (...)”. Repetir uma praça é reexperimentá-la, viver a duração do que “ainda não nos foi tomado”.
O abandono e a desesperança rondam boa parte do livro, que se constrói com dicção e sintaxe próprias de um trabalhador meticuloso, que organiza, guarda e apresenta um mundo desimportante e ao mesmo tempo repleto de força viva. Como os utopistas antiprojetistas,* sem saber e sem querer saber o que virá do futuro, Ismar foi acometido e é construtor de um desencanto que trabalha sem trégua.

Heyk Pimenta

--

INSIGNIFICÂNCIA

Vá trabalhar, anjo.
Nenhuma paixão é realmente capaz de substituir o álcool
afora, talvez, o dinheiro.
Foi assim que construí meu império.
Probidade.
De repente ficou tão humilde que mal consegue deixar o terraço
quando
a chuva quebra seus primeiros frascos de amônia na calçada,
os anjos infiltrados na mureta
dão um dó, diz
que emborcou dois imóveis no Flamengo em menos de dez anos,
ali perto da praia.
Repete.
Repete para você ver
que não me faltam experiências.
Vê-se logo que é um sujeito incapaz de se sacrificar por coisa
                                                                                              [alguma.
Vê-se logo, um aventureiro, às vezes
tomar o caminho mais longo, aquele
que passa pelos botecos que assombrávamos à época.
Ponho a cabeça na chuva,
já não reconheço ninguém.
Galgando ladeiras sempre com grande tormento para todos.
Pois bem, onde já se viu um Wunderkind de trinta anos de idade?
A última crise de fé espocou nos idos da graduação.
Em dado momento vi-me forçado a abandonar a cidade, tão
                                                                                              [exausto
andava de parabenizar os meus.
Eu sou o filho ônibus do Kapital.
Às vezes me pergunto como certamente você

            você
            você
            você

e este homem espigado atrás de mim –,
quem vem lá? A visita inesperada de um moinho.
A Perseverança.
Tão fora de esquadro com dimensões desse sótão.
Um homem bem-nascido pode se dar ao desfrute de ser paciente.
Quanto a mim, sigo em minhas devoções.
Acho que nunca encontrarei uma saída.
O cansaço
saiu-lhe aos braços, a voz
saía-lhe uma fazenda branca.
A cara toda pegada de sólidos.


AUTORRETRATO A PARTIR DE UMA PRAÇA

Com certa frequência nada nos ocorre
de pertinente
a dizer –,                               A dado objeto,
reage-se às vezes com o próprio objeto,
mais nada. Repetir uma praça
talvez prosseguisse alguma superfície
indefinidamente.
A isto chamamos, de hábito,
duração – , o que ainda não nos foi tomado,
dizem, desiludem-nos
de novas relações,
tentarei durante muito tempo.
Não convém desistir, muito arriscado desistir.
(Desisto.)
Sinto que há sobre mim uma clareira muito pesada.
Que me deito sobre ela, ipsis verbis, durmo
como se me candidatasse a um cargo importante






(*) A imagem imperfeita | ideias utópicas para uma época antiutópica  de Russel Jacoby, 2003, editora Civilização Brasileira

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Nota sobre "O dia em que Gottfried Benn pegou onda" de Alberto Pucheu

Nesse poema há um tom de perigo e destruição, e surfistas apresentam suas estratégias para emergir, para voltar à superfície depois de um longo tempo engolidos por ondas brutais. A resistência não conhece os mecanismos do mundo, mas crê que, movido pela aleatoriedade, dele tanto pode vir o afogamento como o jorro que devolve o surfista à praia. Quando não se sabe, é preciso crer. Em Mais cotidiano que o cotidiano, a busca pelo presente mais presente possível, o instante, coloca em xeque as intenções, o destino e mesmo a existência do eu lírico. O presente é o desconhecido e é colocado em suspensão. O surfista espera sem saber se irá emergir, sua única ação potente é aguentar, nada pode contra o torque das ondas, apenas crê: elas o devolverão.

Heyk Pimenta
--

O dia em que Gottfried Benn pegou onda de Alberto Pucheu
(de Mais cotidiano que o cotidiano, Azougue Editorial, 2014)

É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo. É preciso aprender.
Há dias de sol por cima da prancha,
há outros, em que tudo é caixote, vaca,
caldo. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a persistir, a não desistir, é preciso,
é preciso aprender a ficar submerso,
é preciso aprender a ficar lá embaixo,
no círculo sem luz, no furacão de água
que o arremessa ainda mais para baixo,
onde estão os desafiadores dos limites
humanos. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, a persistir, a não desistir,
a não achar que o pulmão vai estourar,
a não achar que o estômago vai estourar,
que as veias salgadas como charque
vão estourar, que um coral vai estourar
os miolos – os seus miolos –, que você
nunca mais verá o sol por cima da água.
É preciso aprender a ficar submerso, a não
falar, a não gritar, a não querer gritar
quando a areia cuspir navalhas em seu rosto,
quando a rocha soltar britadeiras
em sua cabeça, quando seu corpo
se retorcer feito meia em máquina de lavar,
é preciso ser duro, é preciso aguentar,
é preciso persistir, é preciso não desistir.
É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a aguentar, é preciso aguentar
esperar, é preciso aguentar esperar
até se esquecer do tempo, até se esquecer
do que se espera, até se esquecer da espera,
é preciso aguentar ficar submerso
até se esquecer de que está aguentando,
é preciso aguentar ficar submerso
até que o vulcão de água, voluntarioso,
arremesse você de volta para fora dele.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Marona e o “Óleo das horas dormidas” | Parte II

Os contemporâneos de Marona são gente que morreu tossindo, gente que morreu de frio, todos carcomidos e todos heroicos, não pedem perdão por suas fraquezas. Dylan Thomas, Mandelstam, Jean Genet. A primeira parte de Óleo das horas dormidas traz um guerreiro de cartas e lembranças, está no fim da linha, mas não pode partir. Sabe que tem um ou dois compromissos. Um deles é ser escudeiro dos seus próprios heróis e amigos. Dos primeiros guarda a história, assim como Benjamin sugere que protejamos nossos mortos. Já aos amigos, tudo. “Tenho uma poupança, Heyk. Tudo faltará a você, nada faltará à criança que agora espera.” Disse ele a mim em conversa na cozinha, e diz ele em “sobre a boa amizade”:

            estarei aqui, com os olhos costurados,
            mas você escutará, a cada morto desabado,
            meu coração pigarrear e meus dedos amarelos
            suplicarem por este silêncio de cidade grande
                                                                       (2014, p14)

O outro compromisso também é de escuderia, também é com as crianças – uma pequena heroína nasce quando o poeta já não esperava precisar duelar:
           
            mas não te preocupes, pequena, que agora tudo
            pareça insuficiente de sentidos, afinal és pequena
            demais, mas não te preocupes, mesmo aos trinta
            continuarás pequena para tais questões, e é só
            por ti que eu jamais aceitarei novamente alguém
            que diga: morreu o último romântico – estarei vivo
            e através de mim tu viverás por mais cem anos.
                                                                       (2014, p15)

Assim como compartilha com seus ícones tuberculosos o ethos, Marona também canta como eles. É altíssima a carga imagética dos poemas, tal como é em Ginsberg ou Roberto Piva. E é interessante que dificilmente as imagens apareçam para facilitar os poemas: elas são o seu ambiente, são o que dá caldo aos depoimentos que aqui sangram, quase sempre sangram. Elas não são transformações dos personagens e das paisagens, não são o absurdo vindo de seu mundo desconhecido que age sobre a vida do poeta. No mais das vezes são metáforas, um “como se”. O poeta ama os erros “como o pai distante ama o filho enforcado” (p12), e ele sua “feito um porco príncipe”. (p10) O que de fato acontece nos poemas, na primeira parte do livro, é a conversa. Léo quer dizer o que tem pensado, explicar que sempre poderá nos salvar, apesar de sentir-se já sufocado com o elmo. E as imagens são os ataques súbitos, são para não esquecermos que essa conversa é conduzida com lira e víscera. Mas ele veio para nos contar, e ele narra. Forte mesmo é a narrativa. Ela se conecta durante os textos através da reincidência de algumas palavras: os “olhos costurados” voltam, os “gregos” voltam, os “dentes” voltam, dão fios para nos segurarmos enquanto corremos atrás do poeta.


Heyk Pimenta

***

"uma trégua"
(publicado em  l’amore no, p.72, 7letras: 2011)

por favor não cuide
do seu amor, deixe-o
em paz, do contrário,
transformará em ódio
a pele de cor púrpura.
o que se cuida se mata,
pois abandone seu amor
sob chuva forte, pise,
e faça com que duvidem
de sua força, e queime
sua pele rara, arranque
seus olhos, então cego
ele não verá nada e só
depois ele não será mais
seu amor, ou de alguém:
ele será amor do mundo.
           
não vale a pena falar
(publicado em Óleo das horas dormidas, p20, Oficina Raquel: 2014)

no momento você deve resolver seus dentes e voltar para mim.
as raízes quedaram-se para baixo e penduram nossa infecção.
não vale a pena falar a pena não vale falar uma pena não falar.
acordamos a manhã a dentadas e vestimos a borracha da dor.
não há o que falar não fale o que há o que há não fala falamos.
copio as folhas que se abrem mortas num cata-vento carmesim.
as falhas nossas de cada dia nos dai hoje mas não perdoe nada.
não se pode perdoar o que cobre nossa intenção traumatizada.
das ruínas dos castelos erguemos cartas com furiosas carrancas.
da felicidade apalavrada fizemos um pacto para nossa espera.
nossos medos apavoram a síndrome dos frágeis coelhos pardos.
há belezas vagarosas no entremeio do teu molho para saladas.
e meu suco ralo de humanidade vindoura é doce como a morte.
e mordiscas meu antebraço com a promessa de um despejo feliz.

sábado, 30 de maio de 2015

Marona e o "Óleo das horas dormidas" | Parte I

(foto de Rita Isadora Pessoa)

Publicado no ano passado, 2014, o quarto livro de Leonardo Marona chamou atenção desde a livraria. Nos excitamos com as imersões psicográficas, geralmente indecifráveis, na sessão de autógrafos. Depois disso, o livro veio mês a mês aos tapetões da Oficina, ganhando nas votações, sempre indo às finais e sendo preterido por esse ou aquele motivo, "mas ele é nosso amigo", "estará sempre aí para conversarmos", "vamos chamar alguém que não esteja sempre pele cidade", "será que brigaremos feio?".
Diferente dos autógrafos, o livro não é hermético ou cifrado. Algo como uma longa conversa é construída nesse Óleo, com diferentes interlocutores, mas intuo que o verdadeiro interlocutor é sempre o mesmo. Marona fala para si.
Os amores, os escritores, sua família, como pode ser uma família depois de tudo, estão presentes, dando enredo, construindo desculpas emocionadíssimas e desesperadas para que essa longa conversa continue. Já que quem fala sozinho é doido, sempre estamos acompanhados.
A voltagem de seus textos, esses depoimentos e apelos, e as imagens que remetem quase sempre a coisas miúdas e degradadas fazem o trem de Marona, um trem velho e sem óleo que tem uma meta tripla: chegar/descarrilar/fundir o motor.
Em 2009, Leonardo publica Pequenas biografias não-autorizadas, com orelha do recém homem morto Antônio Abujamra. O que se anuncia ali, nessa lista telefônica com os nomes das pessoas para quem Léo liga, encontramos nos livros seguintes: “é um sopro/ de soldado ferido./ desordenado, ávido,/ silencioso, firme.” (MARONA 2009 p.20) É assim que começa o poema “chet baker”, um dos biografados, um dos contatos da lista. Mas é de Chet que fala o poema?
Léo canta seus pares. Além do jazzista, encontramos Whitman, Lou Reed, Zé Ramalho, Rilke, Helena Ignez, tantos outros, mas é possível perceber uma linha. Uma espécie de time de desgraçados, cada qual imenso em sua maravilha, que, como Léo, andaram por aí com pouca pena, mas sempre com o coração partido.
Nesse mês de junho, Marona será o autor lido pela Oficina Experimental de Poesia. A cada semana, publicaremos dois textos. Um de um livro seu pregresso, outro do Óleo das horas dormidas. Começamos sempre pelo começo. Quer lê-lo conosco? Peça a seleta que preparamos.


Heyk Pimenta




***



“adeus”
(Pequenas biografias não-autorizadas, 7letras, 2009)

hoje estou
contado dias e horas
com a ligeira impressão
de que me cortaram fora
os dedos da mão.

existe um ônibus
à minha espera
do outro lado
do pensamento.

ouço seu freio-
motor antecipando
uma curva fechada
onde repousa meu
óleo essencial.

pelas curvas
dessa
nova estrada
queria
encontrar
no lugar das
placas
marcas
de pneus gastos

e nas marcas
rastros
do meu amor.

mas ninguém
conhece o que ama.

ama-se
surpreendentemente
como quem acolhe
um tiro.

escombros
(Óleo das horas dormidas, Oficina Raquel, 2014)

se ao menos eu fosse um desses fabricantes de canções de ninar,
eu seria aliviado, quem sabe, da minha dor no intestino delgado,
que de certo é pela tristeza ao ler minhas canções despedaçadas,
e quando as meto no papel a mim serão perfeitas, pouco importa
se a morte se concluiu em gelo da montanha e tinta desperdiçada.

quando as meto no papel pouco importa, sem pé, mão ou cabeça,
elas irão aos olhos sem aviso e, já quase sem ternura, sem licença,
farão dormir a besta dura e sua presença trará quem sabe um riso,
alguma crença, mas suo feito um porco-príncipe, é inútil a crença.

se ao menos eu pudesse fabricar a mais simplória canção de ninar,
ah eu dormiria para sempre, com o riso leve dos que sabem dormir.

mas sou pobre e tenho fome, tenho medo de morrer no longo sono,
nada me resta além de arder em brasa, acordar a canção com fogo,
pois que sou operário de um tempo sem descanso para olhos vivos:
posso apenas contemplar minha criação através de seus escombros.