Alexandre Guarnieri escreveu um épico sem reis. Mesmo o
herói não o é: apenas o corpo é uma possibilidade heroica. Em Corpo de Festim (2014, Confraria do
Vento), tudo é apenas possibilidade. Se o corpo e a palavra são de festim (o
corpo é esvaziado de corpo e é construído sobre as palavras, enquanto estas se
esforçam para ser aquele), também a epopeia é um receptáculo em que um corpo qualquer pode ser narrado. A
impossibilidade real da epopeia está somatizada (corporificada) nos sinais de
pontuação, que já não pontuam, mas funcionam como hieróglifos sem aura, onde o
papel do iniciado está disponível para qualquer não-iniciado. O que se narra é
a saga do átomo de carbono às práticas de vigilância e punição sobre o corpo. O
corpo se torna, simultaneamente, em seu livro, o mais ancestral dos povos, e o
povo que virá – mesmo que sejam povos doentes.
“A origem teria sido o primeiro choro / desde recém-nascido, daí a progressão
irrefreada até o último / suspiro (quando fosse lida a última página do seu livro / da vida), interrompido para sempre o ritmo, d’algum / paciente
anônimo ( crônico ) domiciliado em leito terminal.” A doença em Corpo de Festim não é um corpo estranho,
mas uma das condições do corpo mesmo. Como outrora na epopeia o destino de
todo um povo se personificava em reis, em Guarnieri há essa enteléquia da vida
contida numa única partícula.
Rafael Zacca
o átomo de carbono
(i)
(A.
Guarnieri, em Corpo de Festim)
toda a vida contida numa exígua partícula,
– desdobrável de si própria –, equilibrada
sobre a mesma progressão desenfreada;
deuses ferveram-na
numa caldeira aquecida
ante o clarão do big
bang / cozendo-a por milênios,
lenta, nas tripas da mais velha estrela / e lá, aprisionada,
como o maior espetáculo da via láctea, além do limbo
centígrado dos organismos bioquímicos,
replicou-se a enzima de sua fina
(e elástica) matematicidade
// até que [...]
sangue | suor / e
celulose (i)
(A.
Guarnieri, em Corpo de Festim)
a carne, que cada corte desonra,
cintila nesse mal que tarda a sarar
a pressão de toda ofensiva tardia,
qualquer soco, avaria / aí cada agulha
se calcula ou se anula / balbúrdia,
barulho, algazarra que cada palavra
declara, tingindo toda ou alguma
área da página mais alva / à nudez
do papel, a rápida mancha a vio
lentá-la / da pálida celulose, violada,
o que sangra é tinta tipográfica.
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