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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O que tem feito, Renato Rezende?

foto de luciana lopes

"Não tenho escrito muito. E muito menos ainda poesia. Acho que poesia é coisa de mulher. E agora sou um homem. Um homem que envelhece. Pelo menos, por ora."

Essa foi a resposta de Renato Rezende à pergunta da Oficina. A sessão "O que tem feito?" trará notícias e poemas recentes de autores que já passaram pelas nossas sabatinas. Poeta, crítico, curador, tradutor e romancista paulistano, Renato ganhou duas vezes o Prêmio Biblioteca Nacional com os livros Passeio (Record, 2001) e Ímpar (Lamparina, 2005), depois de ter passado pela Índia, Estados Unidos e se fixado no Rio de Janeiro ainda nos anos 1990. O poeta investe seus saberes há alguns anos nas artes plásticas, publicando, escrevendo e por vezes sendo ele também artista, como é possível ver em obras como My heart in Rio e S.O.S Poesia. Inaugurador do termo "poesia em campo ampliado", adaptado da máxima de Rosalind Kraus "escultura em campo expandido", Renato apaga as fronteiras entre escrita, arte e vida se tornando um dos mais versáteis e polêmicos pensadores brasileiros. A oficina estudou o livro Noiva (Azougue, 2008) em 2013, que você pode baixar clicando aqui. Ficamos agora com três poemas inéditos do autor, que, depois de ter sido noiva, louvando o entre-lugar de quem espera, agora enuncia-se homem. 

Heyk Pimenta



MONSTRO


Não importa se na forma de um poema ou não.

Ou importa?

O conteúdo é a forma?

Viver a alteridade radical – ser um outro –
foi o desejo da minha aventura humana. Hoje

eu mesmo sou o Outro.

Aventuro-me a ser esse Outro, quem sou:

cedo às exigências que sobem do meu corpo;
respondo ao que considero ser
as demandas das minhas entranhas;
preencho-me de minha própria história, como se ela desse a forma

do que desde sempre fui e sou.

Sólido e denso agora

como um touro obedeço
ao que está escrito

na carne dos mamíferos

nos astros?

Engordo e envelheço
como todos os porcos, como todos os bichos.



AMÊNDOA


a ferida cicatrizada forma um caroço
 que se guarda no corpo
como um troço na garganta

incomodando

sem conseguir ser cuspido: um cancro

uma amêndoa apodrecida

escura por dentro,
meio esterco

coisa suja orgânica
catarro, coriza
sangue de chouriço

um banzo

fruto dos fracassos a serem transmutados

contra a velhice

a mística
a escrita

                                                                                  não valem nada

esse topázio,

essa granada.

  
TEMPO DE SATURNO


Mais uma vez – a terceira ou quarta em quase cinquenta anos
de vida ganha e perdida neste planeta, procurando ao mesmo tempo alçar voo
e deitar raízes,
adaptar-me, ganhar forma e sentido, como um pássaro
de outro continente,
ferido, perdido
em pânico, 
entre exitoso e falho
me emociono diante da Fontana di Trevi:

Fonte de águas claras, e fonte de lágrimas
nos olhos do meu rosto.

Quase cinquenta anos – e o velho
e novo Netuno, como se fosse eterno, no entanto,
como em nenhum outro lugar
no espelho cego
no espelho cego de tão iluminado, dessa fonte
acena ainda com suas promessas de amores.

Do outro lado, do outro lado da fonte, do muro, do outro lado de Roma, está o Paraíso.
Mas lá não há nada. Sei que seus portais jamais se abrirão. Apenas

uma emoção que eu ainda desconheço, plantada na minha carne,
como uma saudade de mim mesmo;
(eu, que desconheço quem ou o que sou, e que nunca saberei.
Eu, que um dia talvez tenha sido, sem sabê-lo, sem ser nunca quem era.)

Netuno na fonte suspira o aceno da redenção,
com suas Vênus e Afrodites, algumas encarnadas
em minha vida, e por elas agradeço e sorrio, e triste
sem saber por que, sem me dar conta, entre discretas águas, nomeio
todas as mulheres que amei, todos os encontros que sempre foram promessas
e porque apenas promessas, encontros infinitos

na Fontana di Trevi, num trem de Florença a Montepulciano, numa excursão ao Vesúvio,
diante da bancada de peixes da feira de Laranjeiras,
num refrigerador às 3 horas da madrugada num mosteiro no interior do estado de Nova York,
numa encruzilhada de jardim na Índia,
no pátio de uma escola num bairro de classe média de São Paulo há 40 anos,
na porta de um teatro alternativo de Curitiba,
na cafeteria do Museu de Arte Moderna de São Francisco...

Agora sei que o máximo a nós permitido é apenas isso: contemplá-lo
na forma de Netuno emergindo dos oceanos, jorrando as águas cristalinas
e afrodisíacas, absinto, ambrosia, exigindo
de nossos pobres corpos e mentes que envelheçam com comedimento
nossos pobres, glorificados corpos perdidos nas fronhas do tempo,
para sempre deste lado do paraíso
na grande e pequena plataforma do possível.

Mas para chegar aos cinquenta deve-se muito a Cronos, e nesse mesmo dia
de que é feito a vida no planeta, em giros
e em meio as ruínas do Fórum romano
o que restou do templo de Saturno me diz algo sobre fantasia
e sobre o corpo das meninas
que como alegoria se transfere para toda metafísica,
e sem rimas ou floreios,
sem metáforas, sem rodeios, sem poesia:
quando enfim metemos a língua em seus orifícios
o gosto é sempre o mesmo.

Templo de Saturno, de joelhos, humilde:
peço-lhe apenas as bênçãos para viver aqui,
envelhecendo com um mínimo de bom senso.

domingo, 23 de agosto de 2015

Nota sobre "três semblantes" de Lucas Matos


O livro do Lucas Matos, três semblantes, (7 Letras, 2015) é antes de tudo um glossário de Satiricon. Se Lucas quer ser um prosador como Petrônio eu não sei, mas ele faz com que embarquemos nessas pequenas aventuras que parecem nonsense, não porque lembrem labirintos, mas sim por serem tão realistas que o tempo todo olhamos para trás para ter certeza de que não estamos deixando migalhas de pão para marcar o caminho.
Há um dinamismo como se tudo fosse baseado em esquetes. Num primeiro momento você conhece a mulher misteriosa, a tal Marianne K, logo depois o corte de cena: entram mensagens cifradas de agentes secretos, diálogos novelescos, notícias de jornal misturadas ao pensamento não-linear do leitor e do próprio autor.
Dividindo a obra em três partes, a intenção é que três mundos sejam criados apenas para se colidirem em uma grande solidão. Usando o enorme subtítulo do livro “ou no meio da piada você percebe: ninguém vai achar graça ou para cada sentença clara há um engano”, Lucas parece despistar ou se desculpar pelos assuntos que serão usados sem nenhum compromisso que não seja levar a miséria de todos e cada um para todos os lares em que habitamos.
A primeira parte nomeada “A História de Marianne K”, nos faz perguntar quem será a tal mulher ou menina ou invenção? Será o par de Joseph K, com o qual Kafka sonhou; ou a Marianne, como símbolo francês da Liberdade? Sim a Liberdade é feminina, está lá naquele quadro do Delacroix, ainda que seja num mundo patriarcal. Será essa a ambiguidade da nomeação?
No segundo capítulo “Esse Cara” entramos numa misancene com espaços para espionagem, conversas que podem ter saído de um episódio do Twin Peaks, vemos alguns dos versos mais belos de todo o livro e alguns lembretes do tipo de embalagens de drops. Tudo cabe nesse comprimido de realidade porque tudo é reconhecível mesmo quando pode soar fictício demais, aliás é justamente quando assim soa que mais fere o peito.
A obra se fecha na parte intitulada “Os poemas do velho (com algumas coisas de Laurie Anderson)”, mas não se engane, aqui não há envelhecimento, Lucas põe todos para virarem crianças, mesmo aqueles já infantis e bobos.
Os avós são crianças, disso já sabemos, mas nessa roda também estão a torcida do flamengo, o sol, os senhores de idade, todos sofrem de precocidade e infância e isso é de uma tristeza tão doce quanto aquele drops que chupávamos no recreio escolar até ele ou a gente desaparecer.

Ah, será a Marianne K. uma alter ego da Laurie Anderson? Apesar da citação, eu não reconheci nada da Laurie na parte final, existem livros que foram feitos para não acabar.

Marcos Nascimento


dois poemas de três semblantes, de Lucas Matos

Sem título, pg.76

Esta imagem é a que tinha o meu rosto
Mesmo que eu não me lembre disse
Esta miragem é o meu rosto aos 18 anos
Há quem diga que um rosto sem barba
É um rosto limpo
Há quem diga que um céu sem nuvens
É um rosto limpo


Caro sol
Meu bom e velho amigo
Você sabe me dizer
Porque toda vez que faço
A barba eu me perco?
E toda vez que fico
Careca choro como
Uma ovelha nua
Diante da lã?


UNE CHANSON (ALÔ? ESTÁ ME OUVINDO?), p.21

Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor
Nem o pai nem a mãe
E os filhos se você tiver
Vão te amar menos
Vão amar sempre menos
Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor

A mãe está no hospital
E é para você que ele
Liga no sábado de manhã
Ninguém vai te amar
Tanto quanto a esposa
Mandou uma carta
Para a amante tudo
Parece ir para as
Cucuias e é o teu
Email que ele procura

Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor
O pai já não sabe quem é
O cachorro morreu
O filho mordeu os amigos
E quando ele sai para
Passear com o bicho
Sente a corda apertar
Em torno do pescoço

É o teu nome
Que ele sussurra
Com teu nome
Ele engasga
Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor
Nem à primeira vista
Nem o primeiro amor
Nenhum casório
Nenhum estranho
No carnaval que te beijou

Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor.


domingo, 9 de agosto de 2015

Nota sobre "Os ilhados" de Ismar Tirelli Neto


Ismar Tirelli Neto já lançou três livros de poemas. Os ilhados é o terceiro, lançado em julho pela editora 7Letras, dele vieram os dois poemas abaixo. Em “Autorretrato a partir de uma praça”, aparece algo da comunicação matérica e constatatória que é possível ler em Nuno Ramos e Eucanaã Ferraz. As palavras, como todos já sabemos, são insuficientes e em dados momentos percebemos que só as coisas falam por si de forma plena. “A dado objeto,/ reage-se às vezes com o próprio objeto,/ mais nada. Repetir uma praça (...)”. Repetir uma praça é reexperimentá-la, viver a duração do que “ainda não nos foi tomado”.
O abandono e a desesperança rondam boa parte do livro, que se constrói com dicção e sintaxe próprias de um trabalhador meticuloso, que organiza, guarda e apresenta um mundo desimportante e ao mesmo tempo repleto de força viva. Como os utopistas antiprojetistas,* sem saber e sem querer saber o que virá do futuro, Ismar foi acometido e é construtor de um desencanto que trabalha sem trégua.

Heyk Pimenta

--

INSIGNIFICÂNCIA

Vá trabalhar, anjo.
Nenhuma paixão é realmente capaz de substituir o álcool
afora, talvez, o dinheiro.
Foi assim que construí meu império.
Probidade.
De repente ficou tão humilde que mal consegue deixar o terraço
quando
a chuva quebra seus primeiros frascos de amônia na calçada,
os anjos infiltrados na mureta
dão um dó, diz
que emborcou dois imóveis no Flamengo em menos de dez anos,
ali perto da praia.
Repete.
Repete para você ver
que não me faltam experiências.
Vê-se logo que é um sujeito incapaz de se sacrificar por coisa
                                                                                              [alguma.
Vê-se logo, um aventureiro, às vezes
tomar o caminho mais longo, aquele
que passa pelos botecos que assombrávamos à época.
Ponho a cabeça na chuva,
já não reconheço ninguém.
Galgando ladeiras sempre com grande tormento para todos.
Pois bem, onde já se viu um Wunderkind de trinta anos de idade?
A última crise de fé espocou nos idos da graduação.
Em dado momento vi-me forçado a abandonar a cidade, tão
                                                                                              [exausto
andava de parabenizar os meus.
Eu sou o filho ônibus do Kapital.
Às vezes me pergunto como certamente você

            você
            você
            você

e este homem espigado atrás de mim –,
quem vem lá? A visita inesperada de um moinho.
A Perseverança.
Tão fora de esquadro com dimensões desse sótão.
Um homem bem-nascido pode se dar ao desfrute de ser paciente.
Quanto a mim, sigo em minhas devoções.
Acho que nunca encontrarei uma saída.
O cansaço
saiu-lhe aos braços, a voz
saía-lhe uma fazenda branca.
A cara toda pegada de sólidos.


AUTORRETRATO A PARTIR DE UMA PRAÇA

Com certa frequência nada nos ocorre
de pertinente
a dizer –,                               A dado objeto,
reage-se às vezes com o próprio objeto,
mais nada. Repetir uma praça
talvez prosseguisse alguma superfície
indefinidamente.
A isto chamamos, de hábito,
duração – , o que ainda não nos foi tomado,
dizem, desiludem-nos
de novas relações,
tentarei durante muito tempo.
Não convém desistir, muito arriscado desistir.
(Desisto.)
Sinto que há sobre mim uma clareira muito pesada.
Que me deito sobre ela, ipsis verbis, durmo
como se me candidatasse a um cargo importante






(*) A imagem imperfeita | ideias utópicas para uma época antiutópica  de Russel Jacoby, 2003, editora Civilização Brasileira

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Nota sobre "O dia em que Gottfried Benn pegou onda" de Alberto Pucheu

Nesse poema há um tom de perigo e destruição, e surfistas apresentam suas estratégias para emergir, para voltar à superfície depois de um longo tempo engolidos por ondas brutais. A resistência não conhece os mecanismos do mundo, mas crê que, movido pela aleatoriedade, dele tanto pode vir o afogamento como o jorro que devolve o surfista à praia. Quando não se sabe, é preciso crer. Em Mais cotidiano que o cotidiano, a busca pelo presente mais presente possível, o instante, coloca em xeque as intenções, o destino e mesmo a existência do eu lírico. O presente é o desconhecido e é colocado em suspensão. O surfista espera sem saber se irá emergir, sua única ação potente é aguentar, nada pode contra o torque das ondas, apenas crê: elas o devolverão.

Heyk Pimenta
--

O dia em que Gottfried Benn pegou onda de Alberto Pucheu
(de Mais cotidiano que o cotidiano, Azougue Editorial, 2014)

É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo. É preciso aprender.
Há dias de sol por cima da prancha,
há outros, em que tudo é caixote, vaca,
caldo. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a persistir, a não desistir, é preciso,
é preciso aprender a ficar submerso,
é preciso aprender a ficar lá embaixo,
no círculo sem luz, no furacão de água
que o arremessa ainda mais para baixo,
onde estão os desafiadores dos limites
humanos. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, a persistir, a não desistir,
a não achar que o pulmão vai estourar,
a não achar que o estômago vai estourar,
que as veias salgadas como charque
vão estourar, que um coral vai estourar
os miolos – os seus miolos –, que você
nunca mais verá o sol por cima da água.
É preciso aprender a ficar submerso, a não
falar, a não gritar, a não querer gritar
quando a areia cuspir navalhas em seu rosto,
quando a rocha soltar britadeiras
em sua cabeça, quando seu corpo
se retorcer feito meia em máquina de lavar,
é preciso ser duro, é preciso aguentar,
é preciso persistir, é preciso não desistir.
É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a aguentar, é preciso aguentar
esperar, é preciso aguentar esperar
até se esquecer do tempo, até se esquecer
do que se espera, até se esquecer da espera,
é preciso aguentar ficar submerso
até se esquecer de que está aguentando,
é preciso aguentar ficar submerso
até que o vulcão de água, voluntarioso,
arremesse você de volta para fora dele.

domingo, 21 de junho de 2015

Uma nota sobre Corpo de Festim de Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri escreveu um épico sem reis. Mesmo o herói não o é: apenas o corpo é uma possibilidade heroica. Em Corpo de Festim (2014, Confraria do Vento), tudo é apenas possibilidade. Se o corpo e a palavra são de festim (o corpo é esvaziado de corpo e é construído sobre as palavras, enquanto estas se esforçam para ser aquele), também a epopeia é um receptáculo em que um corpo qualquer pode ser narrado. A impossibilidade real da epopeia está somatizada (corporificada) nos sinais de pontuação, que já não pontuam, mas funcionam como hieróglifos sem aura, onde o papel do iniciado está disponível para qualquer não-iniciado. O que se narra é a saga do átomo de carbono às práticas de vigilância e punição sobre o corpo. O corpo se torna, simultaneamente, em seu livro, o mais ancestral dos povos, e o povo que virá – mesmo que sejam povos doentes. “A origem teria sido o primeiro choro / desde recém-nascido, daí a progressão irrefreada até o último / suspiro (quando fosse lida a última página do seu livro / da vida), interrompido para sempre o ritmo, d’algum / paciente anônimo ( crônico ) domiciliado em leito terminal.” A doença em Corpo de Festim não é um corpo estranho, mas uma das condições do corpo mesmo. Como outrora na epopeia o destino de todo um povo se personificava em reis, em Guarnieri há essa enteléquia da vida contida numa única partícula.

Rafael Zacca

o átomo de carbono (i)
                                   (A. Guarnieri, em Corpo de Festim)

toda a vida contida numa exígua partícula,
– desdobrável de si própria –, equilibrada
sobre a mesma progressão desenfreada;
deuses ferveram-na numa caldeira aquecida
ante o clarão do big bang / cozendo-a por milênios,
lenta, nas tripas da mais velha estrela / e lá, aprisionada,
como o maior espetáculo da via láctea, além do limbo
centígrado dos organismos bioquímicos,
replicou-se a enzima de sua fina
(e elástica) matematicidade
// até que [...]

sangue | suor / e celulose (i)
                                   (A. Guarnieri, em Corpo de Festim)

a carne, que cada corte desonra,
cintila nesse mal que tarda a sarar
a pressão de toda ofensiva tardia,
qualquer soco, avaria / aí cada agulha
se calcula ou se anula / balbúrdia,
barulho, algazarra que cada palavra
declara, tingindo toda ou alguma
área da página mais alva / à nudez
do papel, a rápida mancha a vio
lentá-la / da pálida celulose, violada,
o que sangra é tinta tipográfica.


terça-feira, 16 de junho de 2015

Marona e o "Óleo das horas dormidas" | parte III

A terceira nota sobre Leonardo Marona é da poeta e pesquisadora Rita Isadora Pessoa.

"Óleo das horas dormidas" (Ed. Oficina Raquel, 2014), terceiro livro de poesia de Leonardo Marona, pode ser lido num fôlego só como um relato de uma longa, interminável viagem. Marona tem sua voragem rimbaudiana e seu livro resta, pende como vestígio, como marca, cicatriz indelével no corpo após uma longa doença - a sua very own temporada no inferno.
A estrutura cindida do volume já nos apresenta dois ritmos, duas estadias: uma leve, um ressonar amoroso e solar; e em seguida uma viagem pesada por um sono escuro, denso, por entre salas de hospitais e torpores medicamentosos, quedas, perdas de voz, sussurros.
Marona tem uma estrutura muito particular, dificilmente escapa a uma forma constante que persegue, uma espécie de arquitetura original perdida antes que fosse possível aprender a engendrar sílabas, ainda mais versos. Seus poemas montam-se como blocos; torres de versos. E seus versos possuem peso e cimento, argamassa concreta, não há nada de fluido no seu estilo; o número de sílabas poéticas é mantido constante, como um animal que se doma a custo, um preço pago ao fogo que o compele ao primeiro movimento de escrita. 
Se, em alguns momentos, ele utiliza a palavra como bisturi cirúrgico, acessando uma verdade dura, rochosa: "ainda não existe o poema fundamental / para mulheres ainda não existe é fato / um homem que seja apto para a mulher", em outros, ele parece adocicar-se, permite-se resfolegar apaixonadamente: "eu quero te engordar / eu quero te engordar / eu quero te engordar (...) algo precisa acontecer uma catástrofe / do contrário eu estarei apaixonado / e apaixonado você disse para isso não é preciso muita coisa". 
Mas não há como deixar de perceber a lucidez viperina que ronda até os versos amorosos, os poemas apaixonados: "sós seremos, mas juntos poderemos ser sós e felizes / não há um esquema prateado que dure uma vida completa / dê-me sua mão apenas e aprendamos a ser aprendizes, / não precisamos de conjugações futuras ou palavra reta."
Essa celebração do instante, do deslumbramento com o pequeno e com a grandeza que há nas pessoas, no cotidiano e nos acontecimentos que escapam à nossa atenção, todos esses são temas que comparecem em seu livro. Leonardo parece ao mesmo tempo saber algo de muito importante, de fundamental sobre a natureza do amor, o apaixonamento, sobre a dolorosa duração da paixão, seus milissegundos de êxtase e desfiladeiro e, da mesma forma misteriosa, desconhecê-los completamente.
Há, entretanto, um conhecimento intuitivo dos ritmos, dos movimentos de contração e expansão do mundo, caos e ordem: "e despedir-se é lançar-se através da vidraça / os corpos perdidos que um dia pensamos: / têm frio, mas apesar de tudo, veem a luz / verde entranha tracejada de escuro cínico". 
Em "Óleo das horas dormidas", Leonardo Marona crias rápidas aberturas de luz, de grande beleza, deixa-nos, contudo, entrever não apenas o zênite, mas também seus poentes, pois no fundo "somos o que podemos ser e não podemos".
Rita Isadora Pessoa
publicado originalmente em Desencaixotando Rita

domingo, 14 de junho de 2015

Uma nota sobre "Graça", de Eucanaã Ferraz

foto retirada de próximo futuro

Aqui tudo é motor épico. O poema de Eucanaã é construído sobre as forças que ameaçam a existência dos povos. As palavras inúteis, as árvores tombadas, os livros partidos são o outro lado do sangue de cidades e de crianças. É a catástrofe que move esse poema de amor. Por quê? O rosto amado, imagem de tudo o que seria contrário às ações violentas dos homens, é como um centro de gravidade que atrai as forças ameaçadoras. As catástrofes de todo o tipo. Não é à toa que o poema convoca a imagem do Inimigo. No centro da batalha, o amor. A imagem do amor seguirá como uma interrupção da guerra sempre que se puder ver que não há nada de natural nas catástrofes. Catástrofe: crises econômicas, saques e pilhagem, deslizamentos de terra, explosões, trens despencando dos trilhos, aviões no fundo do Pacífico, crianças mortas, crianças presas, crianças escravizadas. A imagem do amor seguirá plena quando corresponder àquela que desafia a catástrofe, pois o Outro mora onde tem fim a dominação. “Rosto onde não cabe a guerra.” Eucanaã segue sendo um poeta sentimental. A mesma força com que se mede Yuri Gagarin no poema “El laberinto de la soledad” (em Sentimental), ao contemplar a Terra e voltar imbecilizado (por um lado fraco, por outro curado da inteligência), domina o poema “Graça”. E a morte de que retornou Yuri Gagarin era o amor. Ao dizer que a Terra era azul, ele tentava interromper o curso do mundo, a história das coisas.

Rafael Zacca

***

Graça
em Escuta, Cia das Letras, 2015

Milhões de palavras derramadas inúteis
mas teu rosto não. árvores tombadas livros
partidos tudo se vende mas teu rosto não;
sangue de cidades e crianças mas teu rosto
segue limpo; em cada canto um inimigo;
no teu rosto não; rosto onde não cabe a guerra;
rosto sem irmão; teu rosto
o teu nome o diz.

El laberinto de la Soledad
            em Sentimental, Cia das Letras, 2012

Yuri viu que a Terra é azul e disse a Terra é azul.
Depois disso, ao ver que a folha era verde disse
a folha é verde, via que a água era transparente

e dizia a água é transparente via a chuva que caía
e dizia a chuva está caindo via que a noite surgia
e dizia lá vem a noite, por isso uns amigos diziam

que Yuri era só obviedades enquanto outros
atestavam que tolo se limitava a tautologias
e inimigos juravam que Yuri era um idiota

que se comovia mais que o esperado; chorava
nos museus, teatros, diante da televisão, alguém
varrendo a manhã, cafés vazios no fim da noite,

sacos de carvão; a neve caindo, dizia é branca
a neve e chorava; se estava triste, se alegre,
essa mágoa; mas ria se via um besouro dizia

um besouro e ria; vizinhos e cunhados decretaram:
o homem estava doido; mas sua mulher assegurava
que ele apenas voltara sentimental. O astronauta

lacrimoso sentia o peito tangido de amor total
ao ver as filhas brincando de passar anel
e de melancolia ao deparar com antigas fotos

de Klushino, não aquela dos livros, estufada
de pendões e medalhas, mas sua aldeia menina,
dos carpinteiros, das luas e lobisomens,

de seu tio Pavel, de sua mãe, do trem,
de seus primos, coisas assim, luvas velhas,
furadas, que servem somente para chorar.

Era constrangedor o modo como os olhos
de Yuri pareciam transpassarar parede,
nas reuniões de trabalho, nas solenidades,

nas discussões das metas para o próximo ano
e no instante seguinte podiam se encher de água
e os dentes ficavam quase azuis de um sorriso

inexplicável; um velho general, ironicamente
ou não, afirmara em relatório oficial que Yuri
Gagarin vinha sofrendo de uma ternura

devastadora; sabe se lá o que isso significava,
mas parecia que era exatamante isso, porque
o herói não voltou místico ou religioso, ficou

doce, e podia dizer eu amo você com a facilidade
de um pequeno-burguês, conforme sentença
do Partido a portas fechadas. Certo dia, contam,

caiu aos pés de Octavio Paz; descuidado tropeçara
de paixão pelas telas cubistas degeneradas de Picasso.
Médicos recomendaram vodka, férias, Marx,

barbitúricos; o pobre-diabo fez de tudo
para ser igual a todo mundo; mas,
quando aparecia apenas banal, logo dizia coisas

como a leveza é leve. Desde o início,
quiseram calá-lo; uma pena; Yuri voltou vivo

e não nos contou como é a morte.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Marona e o “Óleo das horas dormidas” | Parte II

Os contemporâneos de Marona são gente que morreu tossindo, gente que morreu de frio, todos carcomidos e todos heroicos, não pedem perdão por suas fraquezas. Dylan Thomas, Mandelstam, Jean Genet. A primeira parte de Óleo das horas dormidas traz um guerreiro de cartas e lembranças, está no fim da linha, mas não pode partir. Sabe que tem um ou dois compromissos. Um deles é ser escudeiro dos seus próprios heróis e amigos. Dos primeiros guarda a história, assim como Benjamin sugere que protejamos nossos mortos. Já aos amigos, tudo. “Tenho uma poupança, Heyk. Tudo faltará a você, nada faltará à criança que agora espera.” Disse ele a mim em conversa na cozinha, e diz ele em “sobre a boa amizade”:

            estarei aqui, com os olhos costurados,
            mas você escutará, a cada morto desabado,
            meu coração pigarrear e meus dedos amarelos
            suplicarem por este silêncio de cidade grande
                                                                       (2014, p14)

O outro compromisso também é de escuderia, também é com as crianças – uma pequena heroína nasce quando o poeta já não esperava precisar duelar:
           
            mas não te preocupes, pequena, que agora tudo
            pareça insuficiente de sentidos, afinal és pequena
            demais, mas não te preocupes, mesmo aos trinta
            continuarás pequena para tais questões, e é só
            por ti que eu jamais aceitarei novamente alguém
            que diga: morreu o último romântico – estarei vivo
            e através de mim tu viverás por mais cem anos.
                                                                       (2014, p15)

Assim como compartilha com seus ícones tuberculosos o ethos, Marona também canta como eles. É altíssima a carga imagética dos poemas, tal como é em Ginsberg ou Roberto Piva. E é interessante que dificilmente as imagens apareçam para facilitar os poemas: elas são o seu ambiente, são o que dá caldo aos depoimentos que aqui sangram, quase sempre sangram. Elas não são transformações dos personagens e das paisagens, não são o absurdo vindo de seu mundo desconhecido que age sobre a vida do poeta. No mais das vezes são metáforas, um “como se”. O poeta ama os erros “como o pai distante ama o filho enforcado” (p12), e ele sua “feito um porco príncipe”. (p10) O que de fato acontece nos poemas, na primeira parte do livro, é a conversa. Léo quer dizer o que tem pensado, explicar que sempre poderá nos salvar, apesar de sentir-se já sufocado com o elmo. E as imagens são os ataques súbitos, são para não esquecermos que essa conversa é conduzida com lira e víscera. Mas ele veio para nos contar, e ele narra. Forte mesmo é a narrativa. Ela se conecta durante os textos através da reincidência de algumas palavras: os “olhos costurados” voltam, os “gregos” voltam, os “dentes” voltam, dão fios para nos segurarmos enquanto corremos atrás do poeta.


Heyk Pimenta

***

"uma trégua"
(publicado em  l’amore no, p.72, 7letras: 2011)

por favor não cuide
do seu amor, deixe-o
em paz, do contrário,
transformará em ódio
a pele de cor púrpura.
o que se cuida se mata,
pois abandone seu amor
sob chuva forte, pise,
e faça com que duvidem
de sua força, e queime
sua pele rara, arranque
seus olhos, então cego
ele não verá nada e só
depois ele não será mais
seu amor, ou de alguém:
ele será amor do mundo.
           
não vale a pena falar
(publicado em Óleo das horas dormidas, p20, Oficina Raquel: 2014)

no momento você deve resolver seus dentes e voltar para mim.
as raízes quedaram-se para baixo e penduram nossa infecção.
não vale a pena falar a pena não vale falar uma pena não falar.
acordamos a manhã a dentadas e vestimos a borracha da dor.
não há o que falar não fale o que há o que há não fala falamos.
copio as folhas que se abrem mortas num cata-vento carmesim.
as falhas nossas de cada dia nos dai hoje mas não perdoe nada.
não se pode perdoar o que cobre nossa intenção traumatizada.
das ruínas dos castelos erguemos cartas com furiosas carrancas.
da felicidade apalavrada fizemos um pacto para nossa espera.
nossos medos apavoram a síndrome dos frágeis coelhos pardos.
há belezas vagarosas no entremeio do teu molho para saladas.
e meu suco ralo de humanidade vindoura é doce como a morte.
e mordiscas meu antebraço com a promessa de um despejo feliz.