quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Todasascoisas, ou uma nota em torno de Jóquei

Uma antiga história nos conta a chegada de alguém a uma cidade, montando um asno e vindo de longe. Diante do asno, seguindo a pé e os acompanhando, uma pessoa parece assentir o caminho. Tal chegada leva a história, no entanto, a um fim que já conhecemos: não outro senão a alegria do mundo.
Jóquei. O livro já recebeu diversas apresentações, assim como sua autora, a poeta luso-carioca Matilde Campilho. Os procedimentos e referências de Matilde para compor o livro foram exploradas, como também o tom prosaico, e se escreveu algo sobre “esta coisa da alegria” que, queremos, “ainda vai dar muito certo”. Acho que nada se disse, além do que Jóquei nos conta, em torno da fome e dos amores de aço, que permanecem, se espalham e depois voltam em poemas-cartas, destinadas à gente cujo nome mora a milhas e anos. Aqui também não se dirá. Nem como se rouba “pele, pelo, retina”, ou se usa “a hora do despertar do monge”. A desimportância dos tribunais quando se dá “de caras com a vida” ficará para outro lugar. E talvez nada se leia quanto aos marcadores de gênero, às vozes indecidíveis. Jóquei é também um “climograma”, e, quem sabe, cada letra encene mais que as gentes cavalgantes, a própria cena, o rodopio das estações e a alegria do mundo – isto tudo que, num jogo tipográfico, foi dito “todasascoisas”.
Talvez fosse preciso apenas citar. Ou bastaria colar aqui as fotos de alguns versos recortados. Ao lado, claro, de uma ou duas dedicatórias que já fazem as vezes de convite.
Mas Jóquei leva a mais. E nos leva a mais pelo menos, pelo singelo das coisas que chegam em cada momento. Como num Golpe de 7 graus:

Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente

O colibri e a simpatia, Black & Decker, a bicicleta, eixo da saia de seda amarela, o Verão, um dervixe – em Jóquei, cada coisa está entregue à simplicidade de seu “era só”. Talvez por isso venham sempre de sorriso na cara, podendo meramente haver. Aqui, quando já não é preciso nem se deve ser sinal, nem mesmo do amor, apenas o amor sinaliza a si. Ou nem mais de sinais viva.
Simplesmente havendo, cada coisa se faz “mais que suficiente”. E “há milagres”, espanto. A matéria de Jóquei é feita desse excesso que da singeleza transborda, e nos chega pelas mãos de luvas brancas ainda que sujas.
Numa entrevista recente, a poeta disse que a poesia, as artes, “salvam os minutos”, e que “a gente vai tentando salvar os segundinhos” da vida. Em Jóquei, todasascoisas já estão salvas, anunciando alegrias em conversas ao pé do ouvido. E se depender disso, “ninguém mais se afogará”, mesmo que neste Verão insistamos nos mergulhos.



 Khalil Andreozzi


Eu já escuto os teus sinais
                                   Matilde Campilho, em Jóquei

Olhe lá
Eu nunca quis voltar
atrás no tempo
nem por uma vez
A vida já foi muito boa
e muito ruim comigo
com minhas costas
com meus rins
com meus estúpidos
glóbulos vermelhos
com minha melancolia
com minha nacionalidade
A vida já foi mais estúpida
que meus glóbulos vermelhos
Mais doce que a visão do sol
de junho batendo nos joelhos
de um garoto ou de uma mulher
A vida já se serviu de mim
como uma pega
como um garçon
como um respingador
como um profissional 
de marcação de fronteiras
Serviu-se de mim
para todos os trabalhos
Quis cuspir-lhe na cara
vezinquando
Mas nunca
por razão nenhuma
quis voltar atrás
no tempo da vida
Pelo contrário
sempre me servi
do tempo dela
para aprender a contar
as partes todas
da futebolada mística
Desta vez é diferente
Escute agora é diferente
Daqui da bancada 
dá pra ver meio passado 
e meio futuro
Me sento sobre o balde
do duro inverno boreal
E enquanto vou esculpindo 
o lustroso nada a canivete
Eu vejo os 32ºC no pontão
do Leme (mais cinco graus
se contarmos a temperatura
externa da pedra física)
Sobre o cais estão dançando
alguns astros imperfeitos
Suspeito que são homens
Eles levantam suas plumas
até a garganta do deserto
Sim eu me lembro
Mais de 40 homens
e a banda tocando 
uma canção de amor
De repente lá vem vindo
oba de repente lá vem
Estou falando da entrada 
da menina na arena
Da entrada dos seus cabelos
na frente de nossas retinas
Estou falando da velocidade 
de um bambolê elétrico
rodopiando em torno
de tantos triplos suores
enquanto a banda toca
Olhe lá não procure histórias
estou falando de algum passado
Estou falando do ritmo
de uma estação violenta
E nem por isso impiedosa
É verão no Rio de Janeiro
Daqui deste balde revirado
dá pra ver a felicidade
desabando sobre as cabeças
Dá pra ver a força santa
do desejo físico imortal
Dá pra ver disparos
que arrasam com toda
espécie de nacionalidade
Olhe eu nunca quis trocar
os tempos nem as partes
da partida fundamental
Mas daqui deste balde
dá pra ver o assalto
O crime alegórico
que restaurou a alegria
E portanto veja bem
hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só pra me sentar
sobre a pedra austral
e ficar assistindo às explosões
dos bambolês polifônicos
entre os dedos de uma mulher
Hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só pra beijar
a cidade na boca.





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