Uma antiga história nos conta a chegada de alguém a uma
cidade, montando um asno e vindo de longe. Diante do asno, seguindo a pé e os
acompanhando, uma pessoa parece assentir o caminho. Tal chegada leva a história,
no entanto, a um fim que já conhecemos: não outro senão a alegria do mundo.
Jóquei. O livro já recebeu
diversas apresentações, assim como sua autora, a poeta luso-carioca Matilde
Campilho. Os procedimentos e referências de Matilde para
compor o livro foram exploradas, como também o tom prosaico, e se escreveu algo
sobre “esta coisa da alegria” que, queremos, “ainda vai dar muito certo”. Acho
que nada se disse, além do que Jóquei
nos conta, em torno da fome e dos amores de aço, que permanecem, se espalham e
depois voltam em poemas-cartas, destinadas à gente cujo nome mora a milhas e
anos. Aqui também não se dirá. Nem como se rouba “pele, pelo, retina”, ou se usa “a hora do despertar do monge”. A desimportância dos tribunais quando se dá “de
caras com a vida” ficará para outro lugar. E talvez nada se leia quanto aos
marcadores de gênero, às vozes indecidíveis. Jóquei é também um “climograma”, e,
quem sabe, cada letra encene mais que as gentes cavalgantes, a própria cena, o
rodopio das estações e a alegria do mundo – isto tudo que, num jogo
tipográfico, foi dito “todasascoisas”.
Talvez fosse preciso apenas
citar. Ou bastaria colar aqui as fotos de alguns versos recortados. Ao lado,
claro, de uma ou duas dedicatórias que já fazem as vezes de convite.
Mas Jóquei leva a mais. E nos
leva a mais pelo menos, pelo singelo das coisas que chegam em cada momento. Como
num Golpe de 7 graus:
Hoje durante o
sono
eu passeava na
cidade sem renas
Passeava na
avenida onde uma vez
um colibri se
embrenhou em minha testa
na época pensei
que era o sinal do amor
Fui a ver e não
era sinal de nada
era só a
simpatia do passarinho
e isso foi mais
que suficiente
O colibri e a simpatia, Black & Decker, a bicicleta, eixo da
saia de seda amarela, o Verão, um dervixe – em Jóquei, cada coisa está entregue à simplicidade de seu “era só”. Talvez
por isso venham sempre de sorriso na cara, podendo meramente haver. Aqui,
quando já não é preciso nem se deve ser sinal, nem mesmo do amor, apenas o amor
sinaliza a si. Ou nem mais de sinais viva.
Simplesmente havendo, cada coisa
se faz “mais que suficiente”. E “há milagres”, espanto. A matéria de Jóquei é feita desse excesso que da
singeleza transborda, e nos chega pelas mãos de luvas brancas ainda que sujas.
Numa entrevista recente, a poeta
disse que a poesia, as artes, “salvam os minutos”, e que “a gente vai tentando
salvar os segundinhos” da vida. Em Jóquei,
todasascoisas já estão salvas, anunciando alegrias em conversas ao pé do
ouvido. E se depender disso, “ninguém mais se afogará”, mesmo que neste Verão
insistamos nos mergulhos.
Eu já escuto os teus sinais
Matilde
Campilho, em Jóquei
Olhe lá
Eu nunca quis
voltar
atrás no tempo
nem por uma
vez
A vida já foi
muito boa
e muito ruim
comigo
com minhas
costas
com meus rins
com meus
estúpidos
glóbulos
vermelhos
com minha
melancolia
com minha
nacionalidade
A vida já foi
mais estúpida
que meus
glóbulos vermelhos
Mais doce que
a visão do sol
de junho
batendo nos joelhos
de um garoto
ou de uma mulher
A vida já se
serviu de mim
como uma pega
como um garçon
como um
respingador
como um profissional
de marcação de
fronteiras
Serviu-se de
mim
para todos os
trabalhos
Quis
cuspir-lhe na cara
vezinquando
Mas nunca
por razão
nenhuma
quis voltar
atrás
no tempo da
vida
Pelo contrário
sempre me
servi
do tempo dela
para aprender
a contar
as partes
todas
da futebolada
mística
Desta vez é
diferente
Escute agora é
diferente
Daqui da
bancada
dá pra ver
meio passado
e meio futuro
Me sento sobre
o balde
do duro
inverno boreal
E enquanto vou
esculpindo
o lustroso
nada a canivete
Eu vejo os 32ºC
no pontão
do Leme (mais
cinco graus
se contarmos a
temperatura
externa da
pedra física)
Sobre o cais
estão dançando
alguns astros
imperfeitos
Suspeito que
são homens
Eles levantam
suas plumas
até a garganta
do deserto
Sim eu me
lembro
Mais de 40
homens
e a banda
tocando
uma canção de
amor
De repente lá
vem vindo
oba de repente
lá vem
Estou falando
da entrada
da menina na
arena
Da entrada dos
seus cabelos
na frente de
nossas retinas
Estou falando
da velocidade
de um bambolê
elétrico
rodopiando em
torno
de tantos
triplos suores
enquanto a
banda toca
Olhe lá não
procure histórias
estou falando
de algum passado
Estou falando
do ritmo
de uma estação
violenta
E nem por isso
impiedosa
É verão no Rio
de Janeiro
Daqui deste
balde revirado
dá pra ver a
felicidade
desabando
sobre as cabeças
Dá pra ver a
força santa
do desejo
físico imortal
Dá pra ver
disparos
que arrasam
com toda
espécie de
nacionalidade
Olhe eu nunca
quis trocar
os tempos nem
as partes
da partida
fundamental
Mas daqui
deste balde
dá pra ver o
assalto
O crime
alegórico
que restaurou
a alegria
E portanto
veja bem
hoje se eu
pudesse
eu voltava à
cidade
Só pra me
sentar
sobre a pedra
austral
e ficar
assistindo às explosões
dos bambolês
polifônicos
entre os dedos
de uma mulher
Hoje se eu
pudesse
eu voltava à
cidade
Só pra beijar
a cidade na
boca.
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