Começo [autobiografia] (2004, 7Letras e Cosac
& Naify, trad. de Paula Glenadel), de Nathalie Quintane, é uma viagem
pedagógica. Sua escritura se insere no começo dos caminhos e das sensações: ao
perfazer sua autobiografia (pois não se trata, efetivamente, de nenhuma
“narrativa”), a escritora nos convida a um retorno incessante. Esse retorno tem
pelo menos três faces: o da sensibilidade, o da estrutura e o da escritura.
As feituras do absurdo que abrem o livro sob o título
“Começo” são significativas a propósito desse retorno à sensibilidade. Faz-se
um “Ele” que tem um buraco na bochecha, uma espécie de segunda boca que “é
preciso com o dedo levantar a pele enquanto a outra mão avança a colher; uma
vez a quantidade despejada, o dedo descansa e a pele retoma o seu lugar.”
Faz-se um “Ela” que nasceu com uma mosca na perna, cujo desenvolvimento podemos
acompanhar, a partir de raios X e infravermelhos: “podemos seguir suas evoluções,
admirá-la comendo, vê-la dormir de pé. Ela é tranquila: esta mosca não pode
observá-la, a ela; enquanto ela permanece ali, tem apenas um pedaço ridículo de
tecido, que ela suga.” Faz-se ainda outro “Ele” que nasceu com o fígado para
fora do corpo, e traz “o fígado numa bolsa, fixada a um cinto em volta da
cintura”, e “antes de sentar-se, ele a levanta para que ela pouse sobre a sua
coxa sem bater nela.” Em seus detalhes, essas narrativas nos devolvem ao
extremo da percepção, e nos ensinam a res-sentir as coisas.
Por outro lado, o livro retorna à estrutura mesma das narrativas
biográficas. Como criar, a partir de palavras, alguma coisa análoga à vida que
se quer contar? Nathalie não conta essa vida: o livro é organizado em capítulos
com nomes simples como “Começo”, “Comer”, “Crise”, “Colégio”: esses nomes são coordenadas
em que surge... o quê? Nem um mundo, nem uma experiência, nem um sujeito: o que
surge é a estrutura não-acabada, esboçada, de uma autobiografia. Isto não é
simples: Natahalie tenta estruturar,
e é essa tentativa que nos é dada. Tanto aqui, quanto no retorno à
sensibilidade, o que está em jogo é a reeducação da atitude infantil que se
perdeu em tanto de nós: as percepções e a estrutura autobiográfica são apenas
tateadas.
É claro que a consequência é o retorno à própria escritura. É
como se Nathalie não soubesse não só o que é sentir ou organizar as suas
vivências, mas até mesmo escrever. É isso que Paula Glenadel nota em seu
prefácio ao livro de Nathalie: “A dicção específica e especialíssima da poeta
provém da tentativa de constituir uma fenomenologia misturada à reflexão sobre
a linguagem. A esquisitice mesmo de certas meditações, que altera os estados
perceptivos e cognitivos ordinários, torna a leitura um exercício experimental”
– e também a escritura, acrescentaríamos neste ponto.
Nathalie Quintane está tentando começar. É essa tentativa
que nos é entregue, não um produto.
Rafael Zacca
Trechos
“Exceto um cirurgião operando a si mesmo, como H. a caminho
do pólo Norte abriu ele mesmo sua barriga, segurando as pinças de vez em quando
na boca enquanto se localiza, é dado a poucos cortar e levar à altura dos olhos
um de seus próprios pedaços.”
“Exceto um operário na sua sexta-feira, plantado diante da
sua máquina esperando o bate-estaca cair, a cabeça há sete horas transformada
em barulho, é dado a poucos concentrar-se inteiramente na ideia do medo de uma
mão derrapar.”
“Eu recomeço: entro, uma descida à mina acompanhada pelos
colegas, passando o primeiro lençol se passa ao lado de um veio frio, eu os
chamo, fazendo um sinal com a mão, venham lhes digo, digo. O avanço é difícil,
sem parar é preciso retomar fôlego, entretanto nenhum animal, nenhum urso nessa
região glacial, bifurco comigo à esquerda, instalamos a tenda, assentada sobre
a cama, a cabeça serve de mastro. Faz calor, reina um grande calor, é na África
que os nômades assim se enrolam. Silêncio na noite, subida de volta pelo veio
esquerdo, há um bolso estreito por onde passar a mão, os outros seguem, no
limite da asfixia chegam à superfície.”
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