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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Beijo grego | oficina de tradução português-português

Com a oficina “Beijo grego”, propus exercícios para a tradução de poemas do português para o português. A partir de uma tradução coletiva do poema de Manuel Bandeira (“A Realidade e a Imagem”), partimos para a tradução individual de um poema contemporâneo. Foram traduzidos poemas de Mariana Botelho, Leonardo Marona, Lucas Matos e de Augusto Meneghin.

Os resultados foram impressionantes. Cada transcriador (esse tradutor que assume a sua inventividade) privilegiou diferentes aspectos dos poemas para a sua tradução.

O poeta Guilherme Gonçalves, por exemplo, concentrou-se na imagem formada pelo poema de Mariana Botelho, para refazê-la a partir de apenas dois versos: a tradução se deu da linguagem prosaica para a língua curta da palavra-imagem. Já a poeta Grazielle Alves, optou por traduzir o mesmo poema de Botelho para a linguagem da noite.

Simone Vieira traduziu o sol carteiro infalível de Augusto Meneghin pela solidão incontornável de uma família vazia. E Heyk Pimenta optou por traduzir o poema de Leonardo Marona a partir de uma relação de isomorfia: manteve a forma, substituindo os significantes do amor e do cansaço pelas carnalidades da comida e pela intoxicação das fumaças.

Confiram essas soluções e algumas outras.

Rafael Zacca

POEMAS

(A partir de Estudos sobre o silêncio, de M. Botelho)


GUILHERME GONÇALVES
Palavras empedram
Um pássaro
É puro voo

GRAZIELLE ALVES
Leitura sobre a noite

ficamos estáticos diante
das fases
lua azul

encantamento

intangível - Ah! Ausência

observamos

e ela revela - se cheia
brilhante vibração
no meio da escuridão

FELIPE DE OLIVEIRA MENEZES
Estávamos paralisados
Diante da ameaça

Terror
Política fé armas

Iludiamos
Sobre a escrita
As pombas brancas
Acertavam o alvo.

(A partir de “Amanhecer”, de M. Botelho)


ANA CAROLINA DE ASSIS
Envelhecer

aquecer o cabelo descascado de
moscas

tê-lo descalço agora em
charutos

sentar-se branco de
ruas nos
sustos

CAROLINA TURBOLI
Devagar

A gravidez do candelabro
No íntimo

O árbitro na loucura
Da insônia infantil

A sorte da antimatéria
E ninguém lembrará
Do amanhã

(A partir de “Ninguém nas manhãs...”, de A. Meneghin)


SIMONE VIEIRA
ninguém nas janelas
alegra quartos
a família vazia
no chão

(A partir de “lohengrin – overture”, de L. Marona)

 HEYK PIMENTA
no meio dos dedos do moinho aparece o olho da fumaça
que os cachorros cheiram e podem cheirar.
se você não é um cachorro, a estrada barrenta
chega ao moinho, ao pastel de molho
de quem espremeu tomate pra colorir a fumaça.
tem tempo, pastel trabalho, cordão queimado no peito
agarra como dá com a poeira a velhice do abraço
um domingo estrada nunca falta

pro saco de arroz vazio, mas pesado, da família.