Com a oficina “Beijo grego”, propus exercícios para a
tradução de poemas do português para o português. A partir de uma tradução
coletiva do poema de Manuel Bandeira (“A Realidade e a Imagem”), partimos para
a tradução individual de um poema contemporâneo. Foram traduzidos poemas de
Mariana Botelho, Leonardo Marona, Lucas Matos e de Augusto Meneghin.
Os resultados foram impressionantes. Cada transcriador (esse tradutor que assume a
sua inventividade) privilegiou diferentes aspectos dos poemas para a sua
tradução.
O poeta Guilherme Gonçalves, por exemplo, concentrou-se na
imagem formada pelo poema de Mariana Botelho, para refazê-la a partir de apenas
dois versos: a tradução se deu da linguagem prosaica para a língua curta da
palavra-imagem. Já a poeta Grazielle Alves, optou por traduzir o mesmo poema de
Botelho para a linguagem da noite.
Simone Vieira traduziu o sol carteiro infalível de Augusto
Meneghin pela solidão incontornável de uma família vazia. E Heyk Pimenta optou
por traduzir o poema de Leonardo Marona a partir de uma relação de isomorfia:
manteve a forma, substituindo os significantes do amor e do cansaço pelas
carnalidades da comida e pela intoxicação das fumaças.
Confiram essas soluções e algumas outras.
Rafael Zacca
POEMAS
(A partir de Estudos sobre o silêncio, de M. Botelho)
GUILHERME GONÇALVES
Palavras empedram
Um pássaro
É puro voo
GRAZIELLE ALVES
Leitura sobre a noite
ficamos estáticos diante
das fases
lua azul
encantamento
intangível - Ah! Ausência
observamos
e ela revela - se cheia
brilhante vibração
no meio da escuridão
FELIPE DE OLIVEIRA
MENEZES
Estávamos paralisados
Diante da ameaça
Terror
Política fé armas
Iludiamos
Sobre a escrita
As pombas brancas
Acertavam o alvo.
(A partir de “Amanhecer”, de M. Botelho)
ANA CAROLINA DE ASSIS
Envelhecer
aquecer o cabelo descascado de
moscas
tê-lo descalço agora em
charutos
sentar-se branco de
ruas nos
sustos
CAROLINA TURBOLI
Devagar
A gravidez do candelabro
No íntimo
O árbitro na loucura
Da insônia infantil
A sorte da antimatéria
E ninguém lembrará
Do amanhã
(A partir de “Ninguém nas manhãs...”, de A. Meneghin)
SIMONE VIEIRA
ninguém nas janelas
alegra quartos
a família vazia
no chão
(A partir de “lohengrin – overture”, de L. Marona)
no meio dos dedos do moinho aparece o olho da fumaça
que os cachorros cheiram e podem cheirar.
se você não é um cachorro, a estrada barrenta
chega ao moinho, ao pastel de molho
de quem espremeu tomate pra colorir a fumaça.
tem tempo, pastel trabalho, cordão queimado no peito
agarra como dá com a poeira a velhice do abraço
um domingo estrada nunca falta
pro saco de arroz vazio, mas pesado, da família.





