domingo, 14 de junho de 2015

Uma nota sobre "Graça", de Eucanaã Ferraz

foto retirada de próximo futuro

Aqui tudo é motor épico. O poema de Eucanaã é construído sobre as forças que ameaçam a existência dos povos. As palavras inúteis, as árvores tombadas, os livros partidos são o outro lado do sangue de cidades e de crianças. É a catástrofe que move esse poema de amor. Por quê? O rosto amado, imagem de tudo o que seria contrário às ações violentas dos homens, é como um centro de gravidade que atrai as forças ameaçadoras. As catástrofes de todo o tipo. Não é à toa que o poema convoca a imagem do Inimigo. No centro da batalha, o amor. A imagem do amor seguirá como uma interrupção da guerra sempre que se puder ver que não há nada de natural nas catástrofes. Catástrofe: crises econômicas, saques e pilhagem, deslizamentos de terra, explosões, trens despencando dos trilhos, aviões no fundo do Pacífico, crianças mortas, crianças presas, crianças escravizadas. A imagem do amor seguirá plena quando corresponder àquela que desafia a catástrofe, pois o Outro mora onde tem fim a dominação. “Rosto onde não cabe a guerra.” Eucanaã segue sendo um poeta sentimental. A mesma força com que se mede Yuri Gagarin no poema “El laberinto de la soledad” (em Sentimental), ao contemplar a Terra e voltar imbecilizado (por um lado fraco, por outro curado da inteligência), domina o poema “Graça”. E a morte de que retornou Yuri Gagarin era o amor. Ao dizer que a Terra era azul, ele tentava interromper o curso do mundo, a história das coisas.

Rafael Zacca

***

Graça
em Escuta, Cia das Letras, 2015

Milhões de palavras derramadas inúteis
mas teu rosto não. árvores tombadas livros
partidos tudo se vende mas teu rosto não;
sangue de cidades e crianças mas teu rosto
segue limpo; em cada canto um inimigo;
no teu rosto não; rosto onde não cabe a guerra;
rosto sem irmão; teu rosto
o teu nome o diz.

El laberinto de la Soledad
            em Sentimental, Cia das Letras, 2012

Yuri viu que a Terra é azul e disse a Terra é azul.
Depois disso, ao ver que a folha era verde disse
a folha é verde, via que a água era transparente

e dizia a água é transparente via a chuva que caía
e dizia a chuva está caindo via que a noite surgia
e dizia lá vem a noite, por isso uns amigos diziam

que Yuri era só obviedades enquanto outros
atestavam que tolo se limitava a tautologias
e inimigos juravam que Yuri era um idiota

que se comovia mais que o esperado; chorava
nos museus, teatros, diante da televisão, alguém
varrendo a manhã, cafés vazios no fim da noite,

sacos de carvão; a neve caindo, dizia é branca
a neve e chorava; se estava triste, se alegre,
essa mágoa; mas ria se via um besouro dizia

um besouro e ria; vizinhos e cunhados decretaram:
o homem estava doido; mas sua mulher assegurava
que ele apenas voltara sentimental. O astronauta

lacrimoso sentia o peito tangido de amor total
ao ver as filhas brincando de passar anel
e de melancolia ao deparar com antigas fotos

de Klushino, não aquela dos livros, estufada
de pendões e medalhas, mas sua aldeia menina,
dos carpinteiros, das luas e lobisomens,

de seu tio Pavel, de sua mãe, do trem,
de seus primos, coisas assim, luvas velhas,
furadas, que servem somente para chorar.

Era constrangedor o modo como os olhos
de Yuri pareciam transpassarar parede,
nas reuniões de trabalho, nas solenidades,

nas discussões das metas para o próximo ano
e no instante seguinte podiam se encher de água
e os dentes ficavam quase azuis de um sorriso

inexplicável; um velho general, ironicamente
ou não, afirmara em relatório oficial que Yuri
Gagarin vinha sofrendo de uma ternura

devastadora; sabe se lá o que isso significava,
mas parecia que era exatamante isso, porque
o herói não voltou místico ou religioso, ficou

doce, e podia dizer eu amo você com a facilidade
de um pequeno-burguês, conforme sentença
do Partido a portas fechadas. Certo dia, contam,

caiu aos pés de Octavio Paz; descuidado tropeçara
de paixão pelas telas cubistas degeneradas de Picasso.
Médicos recomendaram vodka, férias, Marx,

barbitúricos; o pobre-diabo fez de tudo
para ser igual a todo mundo; mas,
quando aparecia apenas banal, logo dizia coisas

como a leveza é leve. Desde o início,
quiseram calá-lo; uma pena; Yuri voltou vivo

e não nos contou como é a morte.

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