foto retirada de próximo futuro
Aqui tudo é motor épico. O poema de Eucanaã é construído
sobre as forças que ameaçam a existência dos povos. As palavras inúteis, as
árvores tombadas, os livros partidos são o outro lado do sangue de cidades e de
crianças. É a catástrofe que move esse poema de amor. Por quê? O rosto amado,
imagem de tudo o que seria contrário às ações violentas dos homens, é como um
centro de gravidade que atrai as forças ameaçadoras. As catástrofes de todo o
tipo. Não é à toa que o poema convoca a imagem do Inimigo. No centro da
batalha, o amor. A imagem do amor seguirá como uma interrupção da guerra sempre
que se puder ver que não há nada de natural nas catástrofes. Catástrofe: crises
econômicas, saques e pilhagem, deslizamentos de terra, explosões, trens
despencando dos trilhos, aviões no fundo do Pacífico, crianças mortas, crianças
presas, crianças escravizadas. A imagem do amor seguirá plena quando corresponder
àquela que desafia a catástrofe, pois o Outro mora onde tem fim a dominação. “Rosto
onde não cabe a guerra.” Eucanaã segue sendo um poeta sentimental. A mesma força com que se mede Yuri Gagarin no poema
“El laberinto de la soledad” (em Sentimental),
ao contemplar a Terra e voltar imbecilizado (por um lado fraco, por outro curado
da inteligência), domina o poema “Graça”. E a morte de que retornou Yuri
Gagarin era o amor. Ao dizer que a Terra era azul, ele tentava interromper o
curso do mundo, a história das coisas.
Rafael Zacca
***
Graça
em Escuta, Cia das Letras, 2015
Milhões de palavras derramadas
inúteis
mas teu rosto não. árvores
tombadas livros
partidos tudo se vende mas teu
rosto não;
sangue de cidades e crianças mas
teu rosto
segue limpo; em cada canto um
inimigo;
no teu rosto não; rosto onde não
cabe a guerra;
rosto sem irmão; teu rosto
o teu nome o diz.
El laberinto de la
Soledad
em Sentimental, Cia das Letras, 2012
Yuri viu que a Terra é azul e
disse a Terra é azul.
Depois disso, ao ver que a folha
era verde disse
a folha é verde, via que a água
era transparente
e dizia a água é transparente
via a chuva que caía
e dizia a chuva está caindo via
que a noite surgia
e dizia lá vem a noite, por isso
uns amigos diziam
que Yuri era só obviedades
enquanto outros
atestavam que tolo se limitava a
tautologias
e inimigos juravam que Yuri era
um idiota
que se comovia mais que o
esperado; chorava
nos museus, teatros, diante da
televisão, alguém
varrendo a manhã, cafés vazios
no fim da noite,
sacos de carvão; a neve caindo,
dizia é branca
a neve e chorava; se estava
triste, se alegre,
essa mágoa; mas ria se via um
besouro dizia
um besouro e ria; vizinhos e
cunhados decretaram:
o homem estava doido; mas sua
mulher assegurava
que ele apenas voltara
sentimental. O astronauta
lacrimoso sentia o peito tangido
de amor total
ao ver as filhas brincando de
passar anel
e de melancolia ao deparar com
antigas fotos
de Klushino, não aquela dos
livros, estufada
de pendões e medalhas, mas sua
aldeia menina,
dos carpinteiros, das luas e
lobisomens,
de seu tio Pavel, de sua mãe, do
trem,
de seus primos, coisas assim,
luvas velhas,
furadas, que servem somente para
chorar.
Era constrangedor o modo como os
olhos
de Yuri pareciam transpassarar
parede,
nas reuniões de trabalho, nas
solenidades,
nas discussões das metas para o
próximo ano
e no instante seguinte podiam se
encher de água
e os dentes ficavam quase azuis
de um sorriso
inexplicável; um velho general,
ironicamente
ou não, afirmara em relatório
oficial que Yuri
Gagarin vinha sofrendo de uma
ternura
devastadora; sabe se lá o que
isso significava,
mas parecia que era exatamante
isso, porque
o herói não voltou místico ou
religioso, ficou
doce, e podia dizer eu amo você
com a facilidade
de um pequeno-burguês, conforme
sentença
do Partido a portas fechadas.
Certo dia, contam,
caiu aos pés de Octavio Paz;
descuidado tropeçara
de paixão pelas telas cubistas
degeneradas de Picasso.
Médicos recomendaram vodka,
férias, Marx,
barbitúricos; o pobre-diabo fez
de tudo
para ser igual a todo mundo;
mas,
quando aparecia apenas banal,
logo dizia coisas
como a leveza é leve. Desde o
início,
quiseram calá-lo; uma pena; Yuri
voltou vivo
e não nos contou como é a morte.

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