terça-feira, 9 de junho de 2015

Marona e o “Óleo das horas dormidas” | Parte II

Os contemporâneos de Marona são gente que morreu tossindo, gente que morreu de frio, todos carcomidos e todos heroicos, não pedem perdão por suas fraquezas. Dylan Thomas, Mandelstam, Jean Genet. A primeira parte de Óleo das horas dormidas traz um guerreiro de cartas e lembranças, está no fim da linha, mas não pode partir. Sabe que tem um ou dois compromissos. Um deles é ser escudeiro dos seus próprios heróis e amigos. Dos primeiros guarda a história, assim como Benjamin sugere que protejamos nossos mortos. Já aos amigos, tudo. “Tenho uma poupança, Heyk. Tudo faltará a você, nada faltará à criança que agora espera.” Disse ele a mim em conversa na cozinha, e diz ele em “sobre a boa amizade”:

            estarei aqui, com os olhos costurados,
            mas você escutará, a cada morto desabado,
            meu coração pigarrear e meus dedos amarelos
            suplicarem por este silêncio de cidade grande
                                                                       (2014, p14)

O outro compromisso também é de escuderia, também é com as crianças – uma pequena heroína nasce quando o poeta já não esperava precisar duelar:
           
            mas não te preocupes, pequena, que agora tudo
            pareça insuficiente de sentidos, afinal és pequena
            demais, mas não te preocupes, mesmo aos trinta
            continuarás pequena para tais questões, e é só
            por ti que eu jamais aceitarei novamente alguém
            que diga: morreu o último romântico – estarei vivo
            e através de mim tu viverás por mais cem anos.
                                                                       (2014, p15)

Assim como compartilha com seus ícones tuberculosos o ethos, Marona também canta como eles. É altíssima a carga imagética dos poemas, tal como é em Ginsberg ou Roberto Piva. E é interessante que dificilmente as imagens apareçam para facilitar os poemas: elas são o seu ambiente, são o que dá caldo aos depoimentos que aqui sangram, quase sempre sangram. Elas não são transformações dos personagens e das paisagens, não são o absurdo vindo de seu mundo desconhecido que age sobre a vida do poeta. No mais das vezes são metáforas, um “como se”. O poeta ama os erros “como o pai distante ama o filho enforcado” (p12), e ele sua “feito um porco príncipe”. (p10) O que de fato acontece nos poemas, na primeira parte do livro, é a conversa. Léo quer dizer o que tem pensado, explicar que sempre poderá nos salvar, apesar de sentir-se já sufocado com o elmo. E as imagens são os ataques súbitos, são para não esquecermos que essa conversa é conduzida com lira e víscera. Mas ele veio para nos contar, e ele narra. Forte mesmo é a narrativa. Ela se conecta durante os textos através da reincidência de algumas palavras: os “olhos costurados” voltam, os “gregos” voltam, os “dentes” voltam, dão fios para nos segurarmos enquanto corremos atrás do poeta.


Heyk Pimenta

***

"uma trégua"
(publicado em  l’amore no, p.72, 7letras: 2011)

por favor não cuide
do seu amor, deixe-o
em paz, do contrário,
transformará em ódio
a pele de cor púrpura.
o que se cuida se mata,
pois abandone seu amor
sob chuva forte, pise,
e faça com que duvidem
de sua força, e queime
sua pele rara, arranque
seus olhos, então cego
ele não verá nada e só
depois ele não será mais
seu amor, ou de alguém:
ele será amor do mundo.
           
não vale a pena falar
(publicado em Óleo das horas dormidas, p20, Oficina Raquel: 2014)

no momento você deve resolver seus dentes e voltar para mim.
as raízes quedaram-se para baixo e penduram nossa infecção.
não vale a pena falar a pena não vale falar uma pena não falar.
acordamos a manhã a dentadas e vestimos a borracha da dor.
não há o que falar não fale o que há o que há não fala falamos.
copio as folhas que se abrem mortas num cata-vento carmesim.
as falhas nossas de cada dia nos dai hoje mas não perdoe nada.
não se pode perdoar o que cobre nossa intenção traumatizada.
das ruínas dos castelos erguemos cartas com furiosas carrancas.
da felicidade apalavrada fizemos um pacto para nossa espera.
nossos medos apavoram a síndrome dos frágeis coelhos pardos.
há belezas vagarosas no entremeio do teu molho para saladas.
e meu suco ralo de humanidade vindoura é doce como a morte.
e mordiscas meu antebraço com a promessa de um despejo feliz.

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