Os contemporâneos de Marona
são gente que morreu tossindo, gente que morreu de frio, todos carcomidos e
todos heroicos, não pedem perdão por suas fraquezas. Dylan Thomas, Mandelstam,
Jean Genet. A primeira parte de Óleo das
horas dormidas traz um guerreiro de cartas e lembranças, está no fim da
linha, mas não pode partir. Sabe que tem um ou dois compromissos. Um deles é
ser escudeiro dos seus próprios heróis e amigos. Dos primeiros guarda a
história, assim como Benjamin sugere que protejamos nossos mortos. Já aos
amigos, tudo. “Tenho uma poupança, Heyk. Tudo faltará a você, nada faltará à
criança que agora espera.” Disse ele a mim em conversa na cozinha, e diz ele em
“sobre a boa amizade”:
estarei aqui, com os olhos costurados,
mas você escutará, a cada morto desabado,
meu coração pigarrear e meus dedos amarelos
suplicarem por este silêncio de cidade grande
(2014,
p14)
O outro compromisso também é
de escuderia, também é com as crianças – uma pequena heroína nasce quando o poeta
já não esperava precisar duelar:
mas não te preocupes, pequena, que agora tudo
pareça insuficiente de sentidos, afinal és pequena
demais, mas não te preocupes, mesmo aos trinta
continuarás pequena para tais questões, e é só
por ti que eu jamais aceitarei novamente alguém
que diga: morreu o
último romântico – estarei vivo
e através de mim tu viverás por mais cem anos.
(2014,
p15)
Assim como compartilha com seus
ícones tuberculosos o ethos, Marona também canta como eles. É altíssima a carga
imagética dos poemas, tal como é em Ginsberg ou Roberto Piva. E é interessante
que dificilmente as imagens apareçam para facilitar os poemas: elas são o seu ambiente,
são o que dá caldo aos depoimentos que aqui sangram, quase sempre sangram. Elas
não são transformações dos personagens e das paisagens, não são o absurdo vindo de
seu mundo desconhecido que age sobre a vida do poeta. No mais das vezes são
metáforas, um “como se”. O poeta ama os erros “como o pai distante ama o filho
enforcado” (p12), e ele sua “feito um porco príncipe”. (p10) O que de fato
acontece nos poemas, na primeira parte do livro, é a conversa. Léo quer dizer o
que tem pensado, explicar que sempre poderá nos salvar, apesar de sentir-se já
sufocado com o elmo. E as imagens são os ataques súbitos, são para não
esquecermos que essa conversa é conduzida com lira e víscera. Mas ele veio para
nos contar, e ele narra. Forte mesmo é a narrativa. Ela se conecta durante os textos
através da reincidência de algumas palavras: os “olhos costurados” voltam, os
“gregos” voltam, os “dentes” voltam, dão fios para nos segurarmos enquanto
corremos atrás do poeta.
Heyk Pimenta
***
"uma trégua"
(publicado em
l’amore no, p.72, 7letras: 2011)
por
favor não cuide
do
seu amor, deixe-o
em
paz, do contrário,
transformará
em ódio
a
pele de cor púrpura.
o
que se cuida se mata,
pois
abandone seu amor
sob
chuva forte, pise,
e
faça com que duvidem
de
sua força, e queime
sua
pele rara, arranque
seus
olhos, então cego
ele
não verá nada e só
depois
ele não será mais
seu
amor, ou de alguém:
ele
será amor do mundo.
não
vale a pena falar
(publicado em Óleo
das horas dormidas, p20, Oficina Raquel: 2014)
no momento você deve resolver seus dentes e voltar para
mim.
as raízes quedaram-se para baixo e penduram nossa
infecção.
não vale a pena falar a pena não vale falar uma pena não
falar.
acordamos a manhã a dentadas e vestimos a borracha da
dor.
não há o que falar não fale o que há o que há não fala
falamos.
copio as folhas que se abrem mortas num cata-vento
carmesim.
as falhas nossas de cada dia nos dai hoje mas não perdoe
nada.
não se pode perdoar o que cobre nossa intenção
traumatizada.
das ruínas dos castelos erguemos cartas com furiosas
carrancas.
da felicidade apalavrada fizemos um pacto para nossa
espera.
nossos medos apavoram a síndrome dos frágeis coelhos
pardos.
há belezas vagarosas no entremeio do teu molho para
saladas.
e meu suco ralo de humanidade vindoura é doce como a
morte.
e mordiscas meu antebraço com a promessa de um despejo
feliz.
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