quarta-feira, 22 de julho de 2015

Nota sobre "O dia em que Gottfried Benn pegou onda" de Alberto Pucheu

Nesse poema há um tom de perigo e destruição, e surfistas apresentam suas estratégias para emergir, para voltar à superfície depois de um longo tempo engolidos por ondas brutais. A resistência não conhece os mecanismos do mundo, mas crê que, movido pela aleatoriedade, dele tanto pode vir o afogamento como o jorro que devolve o surfista à praia. Quando não se sabe, é preciso crer. Em Mais cotidiano que o cotidiano, a busca pelo presente mais presente possível, o instante, coloca em xeque as intenções, o destino e mesmo a existência do eu lírico. O presente é o desconhecido e é colocado em suspensão. O surfista espera sem saber se irá emergir, sua única ação potente é aguentar, nada pode contra o torque das ondas, apenas crê: elas o devolverão.

Heyk Pimenta
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O dia em que Gottfried Benn pegou onda de Alberto Pucheu
(de Mais cotidiano que o cotidiano, Azougue Editorial, 2014)

É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo. É preciso aprender.
Há dias de sol por cima da prancha,
há outros, em que tudo é caixote, vaca,
caldo. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a persistir, a não desistir, é preciso,
é preciso aprender a ficar submerso,
é preciso aprender a ficar lá embaixo,
no círculo sem luz, no furacão de água
que o arremessa ainda mais para baixo,
onde estão os desafiadores dos limites
humanos. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, a persistir, a não desistir,
a não achar que o pulmão vai estourar,
a não achar que o estômago vai estourar,
que as veias salgadas como charque
vão estourar, que um coral vai estourar
os miolos – os seus miolos –, que você
nunca mais verá o sol por cima da água.
É preciso aprender a ficar submerso, a não
falar, a não gritar, a não querer gritar
quando a areia cuspir navalhas em seu rosto,
quando a rocha soltar britadeiras
em sua cabeça, quando seu corpo
se retorcer feito meia em máquina de lavar,
é preciso ser duro, é preciso aguentar,
é preciso persistir, é preciso não desistir.
É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a aguentar, é preciso aguentar
esperar, é preciso aguentar esperar
até se esquecer do tempo, até se esquecer
do que se espera, até se esquecer da espera,
é preciso aguentar ficar submerso
até se esquecer de que está aguentando,
é preciso aguentar ficar submerso
até que o vulcão de água, voluntarioso,
arremesse você de volta para fora dele.

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