A portuguesa Matilde Campilho é a autora que estudaremos no mês de agosto na Oficina.
Zanone Fraissat
Jóquei, seu primeiro livro de poemas esgotou sucessivas vezes nas edições portuguesas, e agora o público brasileiro tem acesso aos seus poemas pela Editora 34. O efeito de Matilde sobre um público tão grande não é de se desprezar, e talvez ele se deva a uma capacidade prosaica de seus poemas. No século XIX, o poeta francês Charles Baudelaire, em seu Flores do Mal, misturaria às formas clássicas o seu tom mais próximo da fala cotidiana, e, apesar do fracasso inicial, se tornou um sucesso inegável entre as gerações seguintes. O mesmo aconteceria com a geração Beat, nos Estados Unidos, quando os poemas alucinaram toda uma geração, ainda antes da explosão do Rock n’ Roll – as leituras de Uivo, de Allen Ginsberg, podem ser encontradas na internet, e ainda fazem escola. Também Matilde é não apenas uma poeta de peso, mas também uma grande leitora. Esse retorno da dimensão rapsódica dos poemas (como se tivéssemos retornado, por breves instantes, àqueles tempos em que xs poetas se dirigiam a muitxs, perdida justamente no momento em que o poema deixa de ser oral e vai para os livros) é realizada por Matilde por meio não apenas de sua dicção prosaica, mas também cotidiana. Falando em oralidade, é possível ouvir a poeta:
No dia 19 de agosto iremos nos encontrar para debater o Jóquei. É no Imperator, na Zona Norte da cidade, sempre aberto, sempre de graça, sempre às 19h.
Rafael Zacca
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Confira alguns poemas de Matilde Campilho:
Fur
com cara de Whitman
foi assim que você pensou que eu viria ao mundo
foi assim que você me viu na floresta
foi assim que você me viu pendurado no poste elétrico
sempre pendurado num ramo qualquer
sempre usando o verão.
você se lembra daquele verão no Brooklin
em que ficámos perseguindo os bombeiros
durante todo o dia apenas para ver
uma vez e depois outra vez
o leque aquático que se abria sobre o fogo?
você citava poetas húngaros mas nesse tempo
eu só queria saber de inventar uma língua
que não existisse.
você se lembra do concierge que nos recebia
na pensão do Brooklin como se nunca
nos houvesse visto antes?
e não havia semana que passasse
em que nós não dormíssemos
pelo menos uma madrugada
na pensão do Brooklin.
me lembro dos dólares amassados
que eu semanalmente tirava do bolso
para pagar a Doug
eu sabia o nome de Doug
o Doug nos tratava disfarçadamente
por menina e menino.
você falava que os dólares vinham
sempre com uma forma diferente
eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso
eu adoro como você consegue tirar uma lâmpada do bolso
eu adoro como você consegue tirar a Beretta 92fs do bolso
foi assim que você pensou que eu ficaria
no mundo
com corpo de besta vestida
usando um lápis pousado na orelha
você se lembra daquele verão no Brooklin
em que ficámos perseguindo os bombeiros
durante todo o dia apenas para ver
uma vez e depois outra vez
o leque aquático que se abria sobre o fogo?
você citava poetas húngaros mas nesse tempo
eu só queria saber de inventar uma língua
que não existisse.
você se lembra do concierge que nos recebia
na pensão do Brooklin como se nunca
nos houvesse visto antes?
e não havia semana que passasse
em que nós não dormíssemos
pelo menos uma madrugada
na pensão do Brooklin.
me lembro dos dólares amassados
que eu semanalmente tirava do bolso
para pagar a Doug
eu sabia o nome de Doug
o Doug nos tratava disfarçadamente
por menina e menino.
você falava que os dólares vinham
sempre com uma forma diferente
eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso
eu adoro como você consegue tirar uma lâmpada do bolso
eu adoro como você consegue tirar a Beretta 92fs do bolso
foi assim que você pensou que eu ficaria
no mundo
com corpo de besta vestida
usando um lápis pousado na orelha
foi assim que você me viu
pedindo três ovos para Miss Elsie
a senhora da mercearia na Court Street
ela me deu oito ovos
porque ela sempre dava alguma coisa
ela me achava uma graça e ela não acreditava
em números ímpares. eu também não.
me lembro de você na mercearia
do Brooklyn
você costumava ficar lá atrás
brincando na secção das ferramentas.
se eu tivesse mais do que um coelho,
uma lâmpada ou uma pistola
eu teria te comprado um Black & Decker
eu acho que você seria a pessoa mais feliz da ilha
com um Black & Decker enfiado no cinto.
foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.
só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não.
pedindo três ovos para Miss Elsie
a senhora da mercearia na Court Street
ela me deu oito ovos
porque ela sempre dava alguma coisa
ela me achava uma graça e ela não acreditava
em números ímpares. eu também não.
me lembro de você na mercearia
do Brooklyn
você costumava ficar lá atrás
brincando na secção das ferramentas.
se eu tivesse mais do que um coelho,
uma lâmpada ou uma pistola
eu teria te comprado um Black & Decker
eu acho que você seria a pessoa mais feliz da ilha
com um Black & Decker enfiado no cinto.
foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.
só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não.
-
Príncipe no roseiral
Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.
Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.
-
M
Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado
onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração
que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando
constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a
paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do
qual dá pra ver que o mundo é muito feito de construções de papel-celulose que
vem da árvore e que depois se transforma em lista telefónica de onde alguém
arranca a página e logo transforma em veleiros e montanhas. Talvez porque na
porta do restaurante habitual alguém toca clarinete ao sol, porque até as
ruínas podemos amar nesta cidade, porque eu tenho um olho em você e você tem um
dedo em mim, porque para chegar no telhado do aqueduto é preciso percorrer a
estreita escadaria de pedra e é impossível não esfregar as costas nas paredes
húmidas. Porque atingir o ponto de rebuçado significa simplesmente abandonar
todas as coisas e dedicar-se só à concentração, mesmo que todasascoisas sejam um olho preto e um olho castanho e sua dissociação seja a possível
causa para a avalanche. Porque a palavra Bushboy não existia até aqui mas agora
sim, porque fazer equilibrismo sobre a corda amarela dentro do apartamento é
tudo o que já imaginávamos que ia ser, mesmo antes de acontecer. Porque no
interior do pulmão do cervo tem carne que brilha, brilha tanto como o sol que
se espelha na ponta da seta. Porque acreditamos, você e eu, que a razão final é
que a erva cresça muito acima de nossas cabeças.

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