domingo, 16 de agosto de 2015

Nota sobre "Hospício é Deus", de Maura Lopes Cançado



            Maura me foi indicada em uma conversa de bar. Eu falava de livros que desde uma boa data me interessam, textos sobre loucura. Já havia lido o Inferno, de Strindberg, o excelente Imagens do inconsciente, de Nise da Silveira, o Diário do Hospício, de Lima Barreto, entre outros tantos textos, e me disseram que Hospício é Deus poderia interessar. Me intrigava o título, e encomendei uma edição usada. Enquanto esperava, fui buscar textos dela na web e encontrei trechos do livro  Sofredor do ver e o conto “No quadrado de joana” além de poesias extraídas do mesmo livro que eu esperava. Maura tinha uma escrita afiada e, embora tudo tratasse de uma matéria muito íntima, não era dela que se falava. Era violento e preciso, mas não me preparava para o livro que a essa altura atravessava o Brasil pra chegar aqui.
            Gostaria de manter certa delicadeza e sorriso camarada, como respeito à loucura alheia, mas não posso me furtar a falar que ainda hoje é um livro que expõe tanto da pessoalidade que assusta pelo despudor. A própria Maura fala, sem filtros, que esse diário será um escândalo. A Maura que se mostra sente certo gosto perverso em revelar detalhes das erupções de seu comportamento, como se os rompantes todos que o caracterizam fossem inerentes à consciência. Ela anuncia que ficou nua, que engalfinhou-se com outra interna, que quebrou a sala do médico, isso tudo com uma linha argumentativa rija, sem eufemismos, para tratar daquilo que não se diz. É uma coisa linda a denúncia que se faz, como resgate do sujeito dentro da loucura.
           Dizia Nise da Silveira que o esquizofrênico é aquele que tem o ego cindido. No caso de Maura, o diagnóstico varia, mas as narrativas sobre seu quadro todas apontam para uma desconcertante lucidez, tomo então a liberdade de ter pra mim que Maura tinha um ego pulsante, cortante, contundido. É preciso compreender que a voz de Maura é crítica, toca no ponto nevrálgico que é o desprezo sutil da sociedade normatizante em relação àqueles que não souberam dobrar-se, os marginais, os dissidentes. É da alteridade que trata Maura, de certo heroísmo e graça no degredo, certa altivez violenta e reativa de quem nunca soube a que lugar pertencer.
            Digo lugar porque uma das versões para a obscura origem etimológica da palavra “loucura” é o termo latino “locus”, ou seja, a loucura como um lugar que se habita. Para Maura o retrato da loucura é o retrato do lugar, do hospício que ela concebe brilhantemente como Deus, desfigurando e simultaneamente retratando o sistema próprio de normas que pairam por sobre o paciente psiquiátrico, essa força mística de que é dotado um ambiente governado por interseções de mundos internos.

Liv Lagerblad


Trecho de Hospício é Deus, de Maura Lopes Cançado

"Comecei a escrever um conto. O Sofredor do ver. Gosto do título, trabalhei todo o dia neste conto.
            Esta é a seção mais tranquila e limpa do hospital. Só desço para tomar refeições ou falar com dona Dalmatie. Embaixo é um inferno: doentes sujas e descabeladas pelos corredores, pedindo cigarros, tocando-nos, discutindo umas com as outras, as guardas gritando. Acham-me bonita, olham meu rosto pintado, fazem perguntas chatas, tocam meu cabelo, arrrrr.
            Quanto tempo perdido. Encontro-me sem saber o que fazer, nada aprendi de prático. Ainda no colégio, que fiz de meu tempo? Meu amor pelo sonho é minha maior característica.
            Não amo meus olhos negros.
            Esta noite dancei um balé fantástico,
            cego.
            Meus olhos?
            Misturaram-se ao negrume de suas pupilas.
            Sinto medo. Minha vida não é importante, não sou imprescindível a alguém. Ao contrário: consideram-me inútil, até perniciosa. Socialmente não tenho nenhum valor . Costumo causar sérios desastres a meus amigos. Maria Alice Barroso disse que: “ – Ser amigo da Maura é como viajar de avião”. Ela acha muito perigoso viajar de avião. Sebastião de França se viu obrigado a atirar-se ao mar, em Copacabana, sem saber nadar, às oito horas da noite, completamente nu, para salvar-me (era domingo) de uma tentativa de não sei bem  o que (nado muito bem), quase morrendo afogado, e em seguida ameaçado de ser preso – por atentado ao pudor publico. Apesar de tudo sinto medo do que pode tomar conta de mim. Levar-me para ______ Onde? – Seria necessário aprender a proteger-me contra mim mesma.
            Não possuo nenhum equilíbrio emocional. Passo de grande exaltação a profunda depressão. Gasto-me desesperadamente (não me esquecer de que sou vítima de disritmia cerebral).
            Como estou presa à infância. Nego realidade ao que me veio depois. Até as pessoas, não são – porque não as aceito.

            Meus sapatos amarelos
            um passo adiante da minha solidão.
            Eu os vi mil vezes através de lágrimas,
            na sua ingenuidade gasta, resignada,
            conduzindo os pés que fizeram dança.
            Ó, meus sapatos – amarelo-girassol."

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