Ismar Tirelli Neto já lançou três livros
de poemas. Os ilhados é o terceiro,
lançado em julho pela editora 7Letras, dele vieram os dois poemas abaixo. Em
“Autorretrato a partir de uma praça”, aparece algo da comunicação matérica e
constatatória que é possível ler em Nuno Ramos e Eucanaã Ferraz. As palavras,
como todos já sabemos, são insuficientes e em dados momentos percebemos que só
as coisas falam por si de forma plena. “A dado objeto,/ reage-se às vezes com o próprio objeto,/ mais
nada. Repetir uma praça (...)”. Repetir uma praça é reexperimentá-la, viver a
duração do que “ainda não nos foi tomado”.
O abandono e a desesperança rondam boa parte do livro, que se
constrói com dicção e sintaxe próprias de um trabalhador meticuloso, que
organiza, guarda e apresenta um mundo desimportante e ao mesmo tempo repleto de
força viva. Como os utopistas antiprojetistas,* sem saber
e sem querer saber o que virá do futuro, Ismar foi acometido e é construtor de
um desencanto que trabalha sem trégua.
Heyk Pimenta
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INSIGNIFICÂNCIA
Vá trabalhar, anjo.
Nenhuma paixão é realmente capaz de substituir o álcool
afora, talvez, o dinheiro.
Foi assim que construí meu império.
Probidade.
De repente ficou tão humilde que mal consegue deixar o
terraço
quando
a chuva quebra seus primeiros frascos de amônia na
calçada,
os anjos infiltrados na mureta
dão um dó, diz
que emborcou dois imóveis no Flamengo em menos de dez
anos,
ali perto da praia.
Repete.
Repete
para você ver
que não me faltam experiências.
Vê-se logo que é um sujeito incapaz de se sacrificar por
coisa
[alguma.
Vê-se logo, um aventureiro, às vezes
tomar o caminho mais longo, aquele
que passa pelos botecos que assombrávamos à época.
Ponho a cabeça na chuva,
já não reconheço ninguém.
Galgando ladeiras sempre com grande tormento para todos.
Pois bem, onde já se viu um Wunderkind de trinta anos de idade?
A última crise de fé espocou nos idos da graduação.
Em dado momento vi-me forçado a abandonar a cidade, tão
[exausto
andava de parabenizar os meus.
Eu sou o filho ônibus do Kapital.
Às vezes me pergunto como certamente você
você
você
você
e este homem espigado atrás de mim –,
quem vem lá? A visita inesperada de um moinho.
A Perseverança.
Tão fora de esquadro com dimensões desse sótão.
Um homem bem-nascido pode se dar ao desfrute de ser
paciente.
Quanto a mim, sigo em minhas devoções.
Acho que nunca encontrarei uma saída.
O cansaço
saiu-lhe aos braços, a voz
saía-lhe uma fazenda branca.
A cara toda pegada de sólidos.
AUTORRETRATO A PARTIR DE UMA PRAÇA
Com certa frequência nada nos ocorre
de pertinente
a dizer –, A
dado objeto,
reage-se às vezes com o próprio objeto,
mais nada. Repetir uma praça
talvez prosseguisse alguma superfície
indefinidamente.
A isto chamamos, de hábito,
duração – , o que ainda não nos foi tomado,
dizem, desiludem-nos
de novas relações,
tentarei durante muito tempo.
Não convém desistir, muito arriscado desistir.
(Desisto.)
Sinto que há sobre mim uma clareira muito pesada.
Que me deito sobre ela, ipsis verbis, durmo
como se me candidatasse a um cargo importante
(*)
A imagem imperfeita | ideias utópicas
para uma época antiutópica de Russel
Jacoby, 2003, editora Civilização Brasileira

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