domingo, 23 de agosto de 2015

Nota sobre "três semblantes" de Lucas Matos


O livro do Lucas Matos, três semblantes, (7 Letras, 2015) é antes de tudo um glossário de Satiricon. Se Lucas quer ser um prosador como Petrônio eu não sei, mas ele faz com que embarquemos nessas pequenas aventuras que parecem nonsense, não porque lembrem labirintos, mas sim por serem tão realistas que o tempo todo olhamos para trás para ter certeza de que não estamos deixando migalhas de pão para marcar o caminho.
Há um dinamismo como se tudo fosse baseado em esquetes. Num primeiro momento você conhece a mulher misteriosa, a tal Marianne K, logo depois o corte de cena: entram mensagens cifradas de agentes secretos, diálogos novelescos, notícias de jornal misturadas ao pensamento não-linear do leitor e do próprio autor.
Dividindo a obra em três partes, a intenção é que três mundos sejam criados apenas para se colidirem em uma grande solidão. Usando o enorme subtítulo do livro “ou no meio da piada você percebe: ninguém vai achar graça ou para cada sentença clara há um engano”, Lucas parece despistar ou se desculpar pelos assuntos que serão usados sem nenhum compromisso que não seja levar a miséria de todos e cada um para todos os lares em que habitamos.
A primeira parte nomeada “A História de Marianne K”, nos faz perguntar quem será a tal mulher ou menina ou invenção? Será o par de Joseph K, com o qual Kafka sonhou; ou a Marianne, como símbolo francês da Liberdade? Sim a Liberdade é feminina, está lá naquele quadro do Delacroix, ainda que seja num mundo patriarcal. Será essa a ambiguidade da nomeação?
No segundo capítulo “Esse Cara” entramos numa misancene com espaços para espionagem, conversas que podem ter saído de um episódio do Twin Peaks, vemos alguns dos versos mais belos de todo o livro e alguns lembretes do tipo de embalagens de drops. Tudo cabe nesse comprimido de realidade porque tudo é reconhecível mesmo quando pode soar fictício demais, aliás é justamente quando assim soa que mais fere o peito.
A obra se fecha na parte intitulada “Os poemas do velho (com algumas coisas de Laurie Anderson)”, mas não se engane, aqui não há envelhecimento, Lucas põe todos para virarem crianças, mesmo aqueles já infantis e bobos.
Os avós são crianças, disso já sabemos, mas nessa roda também estão a torcida do flamengo, o sol, os senhores de idade, todos sofrem de precocidade e infância e isso é de uma tristeza tão doce quanto aquele drops que chupávamos no recreio escolar até ele ou a gente desaparecer.

Ah, será a Marianne K. uma alter ego da Laurie Anderson? Apesar da citação, eu não reconheci nada da Laurie na parte final, existem livros que foram feitos para não acabar.

Marcos Nascimento


dois poemas de três semblantes, de Lucas Matos

Sem título, pg.76

Esta imagem é a que tinha o meu rosto
Mesmo que eu não me lembre disse
Esta miragem é o meu rosto aos 18 anos
Há quem diga que um rosto sem barba
É um rosto limpo
Há quem diga que um céu sem nuvens
É um rosto limpo


Caro sol
Meu bom e velho amigo
Você sabe me dizer
Porque toda vez que faço
A barba eu me perco?
E toda vez que fico
Careca choro como
Uma ovelha nua
Diante da lã?


UNE CHANSON (ALÔ? ESTÁ ME OUVINDO?), p.21

Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor
Nem o pai nem a mãe
E os filhos se você tiver
Vão te amar menos
Vão amar sempre menos
Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor

A mãe está no hospital
E é para você que ele
Liga no sábado de manhã
Ninguém vai te amar
Tanto quanto a esposa
Mandou uma carta
Para a amante tudo
Parece ir para as
Cucuias e é o teu
Email que ele procura

Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor
O pai já não sabe quem é
O cachorro morreu
O filho mordeu os amigos
E quando ele sai para
Passear com o bicho
Sente a corda apertar
Em torno do pescoço

É o teu nome
Que ele sussurra
Com teu nome
Ele engasga
Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor
Nem à primeira vista
Nem o primeiro amor
Nenhum casório
Nenhum estranho
No carnaval que te beijou

Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor.


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