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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Exercício sobre "Três semblantes" de Lucas Matos | por Cláudio Medeiros

foto de Rômulo Queiroz

Lucas Matos faz da dívida o princípio que rege a órbita da vida e atrela corpo e mundo a expectativas – indevidas – implicadas nas relações de crédito. “Todos estão em dívida (...). Não há quem não deva, não há quem não tema”. Porque as palavras compram e vendem, o que significa que o sentido é um pacto que elas fecham entre si, um compromisso que dividem segundo um tipo específico de divisão social do trabalho.
A divisão do trabalho reduz cada palavra a não ser outra coisa senão parte, porção atômica indistinta do todo. Da necessidade recíproca que enreda uma palavra em outra, nascerá o sentido. Este terá por base um sistema de compensação, quer dizer, cada palavra é estritamente entrelaçada nas outras pela força da necessidade, uma cadeia de individualidades cujo sentido da parte depende da conjunção com o entorno.
É justamente sob esses termos que “o que existe são textos, línguas são ficções.” O que existe é a divisão do trabalho do sentido ou, o que acaba sendo equivalente, o texto no domínio por ele inaugurado.

peço que os loucos se sentem à esquerda e os sãos se sentem à direita de quem sofre de depressão quem é bipolar peço a você caro sol meu bom e velho amigo se deite para que os que têm saúde pisem e mantenham pés secos sapatos limpos peço que os jovens e magros se façam macios para os joelhos gigantes dos velhos obesos pois é preciso separar o joio do trigo o canhoto do destro e se o sobrinho da noiva sentar no mesmo banco da máfia da família do noivo ou se um velho descansar ao lado de um jovem eles o levarão abaixo (...)

O que nos resta ao tentar satisfazer algum aspecto de Três semblantes é aceitar suas cartas do jogo, é adotar seu funcionamento maquínico, sua forma de manuseio. Não há quem o descodifique, não existe fatiar o corpo do texto tanto quanto nos pareça proporcional ao tamanho da dívida. Existe um lugar onde chego – que não é senão a familiaridade com a qual me aproprio das maneiras de utilizá-lo –, uma terra de possibilidades cartografadas pelo poeta. Logo, referir-se ao texto não para repetir à exaustão o já dito por ele, mas falar sobre o porquê Três semblantes nos proporciona certa liberação da malha sedimentada de sintaxes maternas.
O texto existe como o perspicillum de Galileu, instituindo um horizonte inédito de estrelas fixas. É o que queremos designar quando dizemos que ele inaugura um domínio. Já as “línguas são ficções”, e de duas maneiras correlatas.
Primeiro porque habitamos a clareira do ser, e nos vemos jogados numa relação de pastoreio com as coisas, à medida que é pelo verbo que o mundo nos vem ao encontro. O mais importante: deve-se por essa via admitir que toda abertura ontológica convive com uma retração – em outras palavras, que a clareira implica a retração simultânea de um horizonte de manifestação sobre o qual o poeta só pode calar.
Línguas podem ser ficções em outro sentido. Como, por exemplo, quando nos dizem ser o eu uma sorte de função gramatical – uma ficção canonizada –, tal como o aqui, o agora, que só exercem seus papéis porque ocupam espaços vazios no interior dos quais o impessoal empunha o verbo na língua. Daí o poeta escrever a história de marianne k. É sobre e não para marianne k. que é feita a pergunta sobre saber “distinguir as frases: ‘vou te mandar a real?’ e ‘vou te mandar uns reais?’”
Marianne K. é Rosebud, é a diferença, o devir inarticulável, a dimensão da totalidade cuja vocação é não se deixar individuar pela fúria do sentido. Ela irrompe no texto sempre que urge algum excesso impossível de ser contido: “marianne k. se chama marianne k. porque antes dela vieram: marianne a., marianne b., marianne c., assim por diante?” Ou:
ele espera marianne k. há trinta minutos
olha o relógio e três minutos se passaram
ele espera marianne k. há trinta e três minutos
marianne k. não chega e a saudade não chega
a noite não chega e o dinheiro não chega
ele espera marianne k. e olha o relógio
nenhum minuto passou
ele espera marianne k. e só

É marianne k. uma sorte de lembrete quanto ao desencanto ante o caráter representativo do texto (por exemplo, diz o poeta, sem esperar receber resposta alguma: “a senhora pode me explicar o que é isso?”). Mas ela é sobretudo positividade, é a pastora desses intertícios textuais chamados poemas, que proporcionam à língua vínculos originários de semelhança e similitude. Dos vínculos de semelhança e similitude, ou seja, dessa rede significante que não cansa de capitanear para si um domínio que reclama por autonomia emerge a obra. E tal como as palavras tramam entre si um sistema de necessidade que denominamos divisão do trabalho do sentido, também a obra que daí emerge pode ser prontamente equiparada à imagem de uma sociedade civil. Em seu seio o trabalho e o produto do trabalho são repartidos entre diversos artesãos e operários. Cada homem é comprador e vendedor, credor e devedor, simultaneamente, tal como as palavras na ordem do texto. De fato, “só a dívida nos une”. Mas que então pensemos com Nietzsche: “o grande conceito moral de ‘culpa’, ele diz, teve origem no conceito muito material de ‘dívida’”, na relação de direito privado entre credor e devedor, que remete a formas básicas de compra, venda, comércio, tráfico etc. (se, nessa direção, ensaiássemos um último malabarismo conceitual a fim de nos apropriarmos de algum aspecto do funcionamento de Três semblantes, talvez terminássemos a piada mesmo ninguém achando graça)

galopo a dívida galopante
devo como se deve e cada vez mais
de modo devido em dívida
já não posso pagar
imposto
já não posso pagar
centavo
já não posso pagar
peitinho
todo meu corpo alguém emprestou
e peço mais e devo mais
(...)
o país mais rico do mundo não bastava
para saldar

No crédito bancário, o capital se metamorfoseia em dinheiro e, por meio da circulação, exerce por um lado a função mercantil de aquecer o consumo, por outro “cria valor” na dinâmica da especulação da agiotagem. O juro em questão é um “lucro” que não deixou atrás de si rastros de mercadoria. Um capital parasita, sem dúvida, criação contábil do chamado “capital fictício”, que transita nos circuitos das instituições de especulação com o fim exclusivo de “valorizar-se”.

olha eu não sei te dizer como
olha eu não sei como te dizer
nos últimos meses eu recebi cartas
(...)
cartas não muito sucintas
cartas não muito extensas
os meses passando
nos últimos meses eu recebi cartas
uma atrás da outra

Quer dizer, você não precisa ter em espécie para consumir. O crédito (e pistis, em grego, é termo utilizado pelos apóstolos para designar “fé”; creditum é o particípio passado do verbo latino credere: é aquilo em que cremos, em que depositamos nossa fé, diz Agamben) é a antecipação de um dinheiro virtual, cuja transação implica a fé de que esse dinheiro existe, e de que em breve você per se produzirá valor, sabendo que o credor virá resgatar a quantia líquida acrescida dos juros. Contraio, no entanto, empréstimos a juros de agiotas estrangeiros que são invisíveis, porque, na real, inexistem como pessoa física. Credores que não falam minha língua, mas que são hábeis nos sacramentos do culto ao deus universal, o dinheiro.
Mas não se trata tanto de dívida aqui, e sim de “dívidas mais rápidas que meus olhos”, “dívidas galopantes”, cartas que chegam “uma atrás da outra”,     você que, queira ou não, “sempre paga o que deve”, de uma maneira ou de outra, com imposto ou com peitinho. Importa pouco o consumo, é do homem consumir aquilo que toca. Interessa a dívida derivada da transação que no lugar de saldar o juro, sustenta não só a mesa do agiota, como provê uma ética do consumo. Alguém diria, eis um atributo constititutivo do sistema de crédito: juros que “o país mais rico do mundo não bastava para saldar”; ética do consumo a qual melhor caberia chamarmos de lei do consumo. Nietzsche pensa: “apenas o que não cessa de causar dor fica na memória”, logo a memória da lei em questão não passa por contratos mas cicatrizes.
ninguém vai te amar
tanto quanto o seu credor
o pai já não sabe quem é
o cachorro morreu
o filho mordeu os amigos
e quando ele sai para
passear com o bicho
sente a corda apertar
em torno do pescoço

é o teu nome
que ele sussurra
com teu nome
que ele engasga

Poderia o sofrimento ser compensação para o resgate da dívida? Ou, nos termos do genealogista, pode a culpa ser compensação para saldar a culpa? Se dissermos que não há lugar pra expiação da culpa no capitalismo, teríamos o dever de admitir um masoquismo estrutural do homem. O certo é que erige-se um verdadeiro deus do conceito moral de culpa, e que na forma burguesa de fruição da vida, a culpa cristã, culpa esta que deriva do ódio à vida, passou a ser calculada em termos de dívida.





sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O que tem feito, Pedro Rocha?


“Heyk, o computador tá um pouco confuso pra organizar os poemas, me passa seu endereço e envio pra você pelo correio.” Gostei. Receberia uma carta de um poeta que mora na mesma cidade que eu. Chegou, mas não pelo correio. Pedro levou os poemas em um envelope ao morro da Conceição no último sábado, falaríamos poemas n’A Mesa. “Heyk, o correio me mandou entregar pessoalmente. As filas estão imensas, porque, segundo disseram, agora tudo se faz no correio.” O envelope tinha meu endereço e o dele. Três folhas datilografadas e carimbadas, três poemas, um deles batido só com as teclas da máquina, com força, sem tinta, cada letra marcando e quase furando o papel.
“Quer mexer com o espaço branco do poema? Procura o Pedro Rocha!” Me disse o Guilherme Zarvos em 2007. Pouco depois vi o livro 11, estreia do Pedro, de 2002, na Azougue Editorial. E pedi um exemplar ao Sergio Cohn. Desde então, nos encontramos por aí, pensando, confabulando, achando bonito. Veio Chão inquieto (7letras, 2010), ele e Ericson tinham lançado seus livros juntos. Ericson. Experiência do calor (Lábia gentil, 2014) corre por dentro dessa morte, que Pedro e muitos outros sentiram na pele.
Figura histórica da primeira fase do CEP 20.000, o poeta manda correspondência, gira mimeógrafo, bate máquina, fez a Cartonera Caraatapa e também edita, junto com Pedro Lago, o selo Lábia Gentil, da editora Dantes.
Fique com três poemas e os respectivos comentários do próprio autor sobre cada um deles. Um dos poemas foi um pequeno terrorismo feito no instagram; outro, se transforma, traduzindo-se, em poema objeto; e o último, o tal feito só com a força, sem a tinta, glosa sobre quando o poeta percebe que algumas coisas o poema não salva. No fim, sem responder à pergunta, Pedro contou, com poemas e parênteses, o que tem feito.

Heyk Pimenta 

Ação sem título

            Um Poema
                        cabe
                         abre
                    invade
            qualquer plataforma

pois é ele quem se suporta

            ele se apóia em
            toda superfície
                e mesmo em
                  nenhuma

Quanto mais estranha
          o poema aranha
                        tece sua
                               web

 quão maior o
            avesso

o poema atravessa

como nessa
           fresta de possível

Tá tudo indo
do jeito que dá

mas ele está sempre ali
                             ele tá lá

pode ser duro de
                 abrir

mas é a única parada
que não vale
a pena de
              desistir.

(esse poema foi publicado como comentário em algumas fotos de algumas contas do instagram. Eu ia distribuindo os versos, de baixo pra cima, cada um numa foto, para que ficasse inteiro na aba de alerta para o titular da conta.
Fiz isso até que o instagram me mandou uma mensagem avisando que eu não poderia continuar com a minha pesquisa, brincadeira, experimentação, ação... mas tá lá, nalgumas fotos, muitas...)

PALEANTROPÍDEOS & FUTURISMO

            Gostaria de que
             quando for que
                      eu morrer
           
            meus amigos me peguem
                        meus restos
                          e constru-
                                   am
                                      um
                           objeto com
                                     eles

            que meus ossos sejam
                        material de imagem

            e que fosse isso cedo

(esse poema está, nesse momento, tentando resolver um problema de comunicação e de linguagem e de continuação. Alguns amigos poetas se dispuseram à tarefa de traduzi-lo para seus idiomas estrangeiros, tentando guardar o problema, conversar a dificuldade de pôr na norma um pensamento objeto. O pensamento é antes de ser texto, um objeto prenhe de subjetividade)

     aquele corpo
                calado

   O MAR POR DENTRO
            aquele      cacto

   O MAR POR DENTRO

  vamos à praia criança

   O MAR POR DENTRO

deitado à beira mar

   O MAR POR DENTRO

a mão de onda tenta
                        ainda
     despertar o menino

   O MAR POR DENTRO

passa-lhe suave pelo
                        corpo

   O MAR POR DENTRO

seus trejeitos de
                        água
despertá-lo de onde?
   a onda não sabe

   O MAR DENTRO

(esse poema forçoso, tentando ser algum fazer diante de um mundo de geste em deslocamento. Tentando estender uma mão, criar um trecho de terra, de ajuda, de qualquer coisa, gesto, justo, junto... e não conseguindo!
Não há como resolver algumas coisas num poema, ou me sentiria muito estranho, construindo, escrevendo um bom poema motivado por essa realidade.
Fica algo que não sei nomear. O esforço. A incompetência. Constatação.
O pouco que parece. Esse poeta não serve pra tudo.)

terça-feira, 8 de setembro de 2015

A reeducação em nós da atitude infantil: uma nota de criança sobre Nathalie Quintane

Começo [autobiografia] (2004, 7Letras e Cosac & Naify, trad. de Paula Glenadel), de Nathalie Quintane, é uma viagem pedagógica. Sua escritura se insere no começo dos caminhos e das sensações: ao perfazer sua autobiografia (pois não se trata, efetivamente, de nenhuma “narrativa”), a escritora nos convida a um retorno incessante. Esse retorno tem pelo menos três faces: o da sensibilidade, o da estrutura e o da escritura.

As feituras do absurdo que abrem o livro sob o título “Começo” são significativas a propósito desse retorno à sensibilidade. Faz-se um “Ele” que tem um buraco na bochecha, uma espécie de segunda boca que “é preciso com o dedo levantar a pele enquanto a outra mão avança a colher; uma vez a quantidade despejada, o dedo descansa e a pele retoma o seu lugar.” Faz-se um “Ela” que nasceu com uma mosca na perna, cujo desenvolvimento podemos acompanhar, a partir de raios X e infravermelhos: “podemos seguir suas evoluções, admirá-la comendo, vê-la dormir de pé. Ela é tranquila: esta mosca não pode observá-la, a ela; enquanto ela permanece ali, tem apenas um pedaço ridículo de tecido, que ela suga.” Faz-se ainda outro “Ele” que nasceu com o fígado para fora do corpo, e traz “o fígado numa bolsa, fixada a um cinto em volta da cintura”, e “antes de sentar-se, ele a levanta para que ela pouse sobre a sua coxa sem bater nela.” Em seus detalhes, essas narrativas nos devolvem ao extremo da percepção, e nos ensinam a res-sentir as coisas.

Por outro lado, o livro retorna à estrutura mesma das narrativas biográficas. Como criar, a partir de palavras, alguma coisa análoga à vida que se quer contar? Nathalie não conta essa vida: o livro é organizado em capítulos com nomes simples como “Começo”, “Comer”, “Crise”, “Colégio”: esses nomes são coordenadas em que surge... o quê? Nem um mundo, nem uma experiência, nem um sujeito: o que surge é a estrutura não-acabada, esboçada, de uma autobiografia. Isto não é simples: Natahalie tenta estruturar, e é essa tentativa que nos é dada. Tanto aqui, quanto no retorno à sensibilidade, o que está em jogo é a reeducação da atitude infantil que se perdeu em tanto de nós: as percepções e a estrutura autobiográfica são apenas tateadas.

É claro que a consequência é o retorno à própria escritura. É como se Nathalie não soubesse não só o que é sentir ou organizar as suas vivências, mas até mesmo escrever. É isso que Paula Glenadel nota em seu prefácio ao livro de Nathalie: “A dicção específica e especialíssima da poeta provém da tentativa de constituir uma fenomenologia misturada à reflexão sobre a linguagem. A esquisitice mesmo de certas meditações, que altera os estados perceptivos e cognitivos ordinários, torna a leitura um exercício experimental” – e também a escritura, acrescentaríamos neste ponto.

Nathalie Quintane está tentando começar. É essa tentativa que nos é entregue, não um produto.

Rafael Zacca

Trechos

“Exceto um cirurgião operando a si mesmo, como H. a caminho do pólo Norte abriu ele mesmo sua barriga, segurando as pinças de vez em quando na boca enquanto se localiza, é dado a poucos cortar e levar à altura dos olhos um de seus próprios pedaços.”

“Exceto um operário na sua sexta-feira, plantado diante da sua máquina esperando o bate-estaca cair, a cabeça há sete horas transformada em barulho, é dado a poucos concentrar-se inteiramente na ideia do medo de uma mão derrapar.”


“Eu recomeço: entro, uma descida à mina acompanhada pelos colegas, passando o primeiro lençol se passa ao lado de um veio frio, eu os chamo, fazendo um sinal com a mão, venham lhes digo, digo. O avanço é difícil, sem parar é preciso retomar fôlego, entretanto nenhum animal, nenhum urso nessa região glacial, bifurco comigo à esquerda, instalamos a tenda, assentada sobre a cama, a cabeça serve de mastro. Faz calor, reina um grande calor, é na África que os nômades assim se enrolam. Silêncio na noite, subida de volta pelo veio esquerdo, há um bolso estreito por onde passar a mão, os outros seguem, no limite da asfixia chegam à superfície.”

domingo, 23 de agosto de 2015

Nota sobre "três semblantes" de Lucas Matos


O livro do Lucas Matos, três semblantes, (7 Letras, 2015) é antes de tudo um glossário de Satiricon. Se Lucas quer ser um prosador como Petrônio eu não sei, mas ele faz com que embarquemos nessas pequenas aventuras que parecem nonsense, não porque lembrem labirintos, mas sim por serem tão realistas que o tempo todo olhamos para trás para ter certeza de que não estamos deixando migalhas de pão para marcar o caminho.
Há um dinamismo como se tudo fosse baseado em esquetes. Num primeiro momento você conhece a mulher misteriosa, a tal Marianne K, logo depois o corte de cena: entram mensagens cifradas de agentes secretos, diálogos novelescos, notícias de jornal misturadas ao pensamento não-linear do leitor e do próprio autor.
Dividindo a obra em três partes, a intenção é que três mundos sejam criados apenas para se colidirem em uma grande solidão. Usando o enorme subtítulo do livro “ou no meio da piada você percebe: ninguém vai achar graça ou para cada sentença clara há um engano”, Lucas parece despistar ou se desculpar pelos assuntos que serão usados sem nenhum compromisso que não seja levar a miséria de todos e cada um para todos os lares em que habitamos.
A primeira parte nomeada “A História de Marianne K”, nos faz perguntar quem será a tal mulher ou menina ou invenção? Será o par de Joseph K, com o qual Kafka sonhou; ou a Marianne, como símbolo francês da Liberdade? Sim a Liberdade é feminina, está lá naquele quadro do Delacroix, ainda que seja num mundo patriarcal. Será essa a ambiguidade da nomeação?
No segundo capítulo “Esse Cara” entramos numa misancene com espaços para espionagem, conversas que podem ter saído de um episódio do Twin Peaks, vemos alguns dos versos mais belos de todo o livro e alguns lembretes do tipo de embalagens de drops. Tudo cabe nesse comprimido de realidade porque tudo é reconhecível mesmo quando pode soar fictício demais, aliás é justamente quando assim soa que mais fere o peito.
A obra se fecha na parte intitulada “Os poemas do velho (com algumas coisas de Laurie Anderson)”, mas não se engane, aqui não há envelhecimento, Lucas põe todos para virarem crianças, mesmo aqueles já infantis e bobos.
Os avós são crianças, disso já sabemos, mas nessa roda também estão a torcida do flamengo, o sol, os senhores de idade, todos sofrem de precocidade e infância e isso é de uma tristeza tão doce quanto aquele drops que chupávamos no recreio escolar até ele ou a gente desaparecer.

Ah, será a Marianne K. uma alter ego da Laurie Anderson? Apesar da citação, eu não reconheci nada da Laurie na parte final, existem livros que foram feitos para não acabar.

Marcos Nascimento


dois poemas de três semblantes, de Lucas Matos

Sem título, pg.76

Esta imagem é a que tinha o meu rosto
Mesmo que eu não me lembre disse
Esta miragem é o meu rosto aos 18 anos
Há quem diga que um rosto sem barba
É um rosto limpo
Há quem diga que um céu sem nuvens
É um rosto limpo


Caro sol
Meu bom e velho amigo
Você sabe me dizer
Porque toda vez que faço
A barba eu me perco?
E toda vez que fico
Careca choro como
Uma ovelha nua
Diante da lã?


UNE CHANSON (ALÔ? ESTÁ ME OUVINDO?), p.21

Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor
Nem o pai nem a mãe
E os filhos se você tiver
Vão te amar menos
Vão amar sempre menos
Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor

A mãe está no hospital
E é para você que ele
Liga no sábado de manhã
Ninguém vai te amar
Tanto quanto a esposa
Mandou uma carta
Para a amante tudo
Parece ir para as
Cucuias e é o teu
Email que ele procura

Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor
O pai já não sabe quem é
O cachorro morreu
O filho mordeu os amigos
E quando ele sai para
Passear com o bicho
Sente a corda apertar
Em torno do pescoço

É o teu nome
Que ele sussurra
Com teu nome
Ele engasga
Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor
Nem à primeira vista
Nem o primeiro amor
Nenhum casório
Nenhum estranho
No carnaval que te beijou

Ninguém vai te amar
Tanto quanto o seu credor.


domingo, 9 de agosto de 2015

Nota sobre "Os ilhados" de Ismar Tirelli Neto


Ismar Tirelli Neto já lançou três livros de poemas. Os ilhados é o terceiro, lançado em julho pela editora 7Letras, dele vieram os dois poemas abaixo. Em “Autorretrato a partir de uma praça”, aparece algo da comunicação matérica e constatatória que é possível ler em Nuno Ramos e Eucanaã Ferraz. As palavras, como todos já sabemos, são insuficientes e em dados momentos percebemos que só as coisas falam por si de forma plena. “A dado objeto,/ reage-se às vezes com o próprio objeto,/ mais nada. Repetir uma praça (...)”. Repetir uma praça é reexperimentá-la, viver a duração do que “ainda não nos foi tomado”.
O abandono e a desesperança rondam boa parte do livro, que se constrói com dicção e sintaxe próprias de um trabalhador meticuloso, que organiza, guarda e apresenta um mundo desimportante e ao mesmo tempo repleto de força viva. Como os utopistas antiprojetistas,* sem saber e sem querer saber o que virá do futuro, Ismar foi acometido e é construtor de um desencanto que trabalha sem trégua.

Heyk Pimenta

--

INSIGNIFICÂNCIA

Vá trabalhar, anjo.
Nenhuma paixão é realmente capaz de substituir o álcool
afora, talvez, o dinheiro.
Foi assim que construí meu império.
Probidade.
De repente ficou tão humilde que mal consegue deixar o terraço
quando
a chuva quebra seus primeiros frascos de amônia na calçada,
os anjos infiltrados na mureta
dão um dó, diz
que emborcou dois imóveis no Flamengo em menos de dez anos,
ali perto da praia.
Repete.
Repete para você ver
que não me faltam experiências.
Vê-se logo que é um sujeito incapaz de se sacrificar por coisa
                                                                                              [alguma.
Vê-se logo, um aventureiro, às vezes
tomar o caminho mais longo, aquele
que passa pelos botecos que assombrávamos à época.
Ponho a cabeça na chuva,
já não reconheço ninguém.
Galgando ladeiras sempre com grande tormento para todos.
Pois bem, onde já se viu um Wunderkind de trinta anos de idade?
A última crise de fé espocou nos idos da graduação.
Em dado momento vi-me forçado a abandonar a cidade, tão
                                                                                              [exausto
andava de parabenizar os meus.
Eu sou o filho ônibus do Kapital.
Às vezes me pergunto como certamente você

            você
            você
            você

e este homem espigado atrás de mim –,
quem vem lá? A visita inesperada de um moinho.
A Perseverança.
Tão fora de esquadro com dimensões desse sótão.
Um homem bem-nascido pode se dar ao desfrute de ser paciente.
Quanto a mim, sigo em minhas devoções.
Acho que nunca encontrarei uma saída.
O cansaço
saiu-lhe aos braços, a voz
saía-lhe uma fazenda branca.
A cara toda pegada de sólidos.


AUTORRETRATO A PARTIR DE UMA PRAÇA

Com certa frequência nada nos ocorre
de pertinente
a dizer –,                               A dado objeto,
reage-se às vezes com o próprio objeto,
mais nada. Repetir uma praça
talvez prosseguisse alguma superfície
indefinidamente.
A isto chamamos, de hábito,
duração – , o que ainda não nos foi tomado,
dizem, desiludem-nos
de novas relações,
tentarei durante muito tempo.
Não convém desistir, muito arriscado desistir.
(Desisto.)
Sinto que há sobre mim uma clareira muito pesada.
Que me deito sobre ela, ipsis verbis, durmo
como se me candidatasse a um cargo importante






(*) A imagem imperfeita | ideias utópicas para uma época antiutópica  de Russel Jacoby, 2003, editora Civilização Brasileira