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| foto de Rômulo Queiroz |
Lucas Matos faz da dívida o princípio que rege a órbita da vida e atrela corpo e mundo a expectativas – indevidas – implicadas nas relações de crédito. “Todos estão em dívida (...). Não há quem não deva, não há quem não tema”. Porque as palavras compram e vendem, o que significa que o sentido é um pacto que elas fecham entre si, um compromisso que dividem segundo um tipo específico de divisão social do trabalho.
A
divisão do trabalho reduz cada palavra a não ser outra coisa senão parte,
porção atômica indistinta do todo. Da necessidade recíproca que enreda uma
palavra em outra, nascerá o sentido. Este terá por base um sistema de compensação,
quer dizer, cada palavra é estritamente entrelaçada nas outras pela força da
necessidade, uma cadeia de individualidades cujo sentido da parte depende da
conjunção com o entorno.
É
justamente sob esses termos que “o que existe são textos, línguas são ficções.”
O que existe é a divisão do trabalho do sentido ou, o que acaba sendo
equivalente, o texto no domínio por ele inaugurado.
peço
que os loucos se sentem à esquerda e os sãos se sentem à direita de quem sofre
de depressão quem é bipolar peço a você caro sol meu bom e velho amigo se deite
para que os que têm saúde pisem e mantenham pés secos sapatos limpos peço que
os jovens e magros se façam macios para os joelhos gigantes dos velhos obesos
pois é preciso separar o joio do trigo o canhoto do destro e se o sobrinho da
noiva sentar no mesmo banco da máfia da família do noivo ou se um velho
descansar ao lado de um jovem eles o levarão abaixo (...)
O
que nos resta ao tentar satisfazer algum aspecto de Três semblantes é aceitar suas cartas do jogo, é adotar seu
funcionamento maquínico, sua forma de manuseio. Não há quem o descodifique, não
existe fatiar o corpo do texto tanto quanto nos pareça proporcional ao tamanho
da dívida. Existe um lugar onde chego – que não é senão a familiaridade com a
qual me aproprio das maneiras de utilizá-lo –, uma terra de possibilidades
cartografadas pelo poeta. Logo, referir-se ao texto não para repetir à exaustão
o já dito por ele, mas falar sobre o porquê Três
semblantes nos proporciona certa liberação da malha sedimentada de sintaxes
maternas.
O
texto existe como o perspicillum de
Galileu, instituindo um horizonte inédito de estrelas fixas. É o que queremos
designar quando dizemos que ele inaugura um domínio. Já as “línguas são
ficções”, e de duas maneiras correlatas.
Primeiro
porque habitamos a clareira do ser, e nos vemos jogados numa relação de
pastoreio com as coisas, à medida que é pelo verbo que o mundo nos vem ao
encontro. O mais importante: deve-se por essa via admitir que toda abertura
ontológica convive com uma retração – em outras palavras, que a clareira
implica a retração simultânea de um horizonte de manifestação sobre o qual o poeta
só pode calar.
Línguas
podem ser ficções em outro sentido. Como, por exemplo, quando nos dizem ser o eu uma sorte de função gramatical – uma
ficção canonizada –, tal como o aqui, o agora, que só exercem seus papéis
porque ocupam espaços vazios no interior dos quais o impessoal empunha o verbo
na língua. Daí o poeta escrever a história de marianne k. É sobre e não para marianne k. que é feita a pergunta sobre saber “distinguir as
frases: ‘vou te mandar a real?’ e ‘vou te mandar uns reais?’”
Marianne
K. é Rosebud, é a diferença, o devir inarticulável, a dimensão da totalidade
cuja vocação é não se deixar individuar pela fúria do sentido. Ela irrompe no
texto sempre que urge algum excesso impossível de ser contido: “marianne k. se
chama marianne k. porque antes dela vieram: marianne a., marianne b., marianne
c., assim por diante?” Ou:
ele espera
marianne k. há trinta minutos
olha o relógio e
três minutos se passaram
ele espera
marianne k. há trinta e três minutos
marianne k. não
chega e a saudade não chega
a noite não
chega e o dinheiro não chega
ele espera
marianne k. e olha o relógio
nenhum minuto
passou
ele
espera marianne k. e só
É
marianne k. uma sorte de lembrete quanto ao desencanto ante o caráter
representativo do texto (por exemplo, diz o poeta, sem esperar receber resposta
alguma: “a senhora pode me explicar o que é isso?”). Mas ela é sobretudo
positividade, é a pastora desses intertícios textuais chamados poemas, que
proporcionam à língua vínculos originários de semelhança e similitude. Dos
vínculos de semelhança e similitude, ou seja, dessa rede significante que não
cansa de capitanear para si um domínio que reclama por autonomia emerge a obra.
E tal como as palavras tramam entre si um sistema de necessidade que
denominamos divisão do trabalho do sentido, também a obra que daí emerge pode
ser prontamente equiparada à imagem de uma sociedade civil. Em seu seio o
trabalho e o produto do trabalho são repartidos entre diversos artesãos e
operários. Cada homem é comprador e vendedor, credor e devedor,
simultaneamente, tal como as palavras na ordem do texto. De fato, “só a dívida
nos une”. Mas que então pensemos com Nietzsche: “o grande conceito moral de
‘culpa’, ele diz, teve origem no conceito muito material de ‘dívida’”, na
relação de direito privado entre credor e
devedor, que remete a formas básicas
de compra, venda, comércio, tráfico etc. (se, nessa direção, ensaiássemos um
último malabarismo conceitual a fim de nos apropriarmos de algum aspecto do
funcionamento de Três semblantes,
talvez terminássemos a piada mesmo ninguém achando graça)
galopo a dívida
galopante
devo como se
deve e cada vez mais
de modo devido
em dívida
já não posso
pagar
imposto
já não posso
pagar
centavo
já não posso
pagar
peitinho
todo meu corpo
alguém emprestou
e peço mais e
devo mais
(...)
o país mais rico
do mundo não bastava
para saldar
No crédito bancário, o capital se
metamorfoseia em dinheiro e, por meio da circulação, exerce por um lado a
função mercantil de aquecer o consumo, por outro “cria valor” na dinâmica da
especulação da agiotagem. O juro em questão é um “lucro” que não deixou atrás
de si rastros de mercadoria. Um capital parasita, sem dúvida, criação contábil
do chamado “capital fictício”, que transita nos circuitos das instituições de
especulação com o fim exclusivo de “valorizar-se”.
olha eu não sei
te dizer como
olha eu não sei
como te dizer
nos últimos
meses eu recebi cartas
(...)
cartas não muito
sucintas
cartas não muito
extensas
os meses
passando
nos últimos
meses eu recebi cartas
uma atrás da
outra
Quer
dizer, você não precisa ter em espécie para
consumir. O crédito (e pistis, em
grego, é termo utilizado pelos apóstolos para designar “fé”; creditum é o particípio passado do verbo
latino credere: é aquilo em que
cremos, em que depositamos nossa fé, diz Agamben) é a antecipação de um
dinheiro virtual, cuja transação implica a fé
de que esse dinheiro existe, e de que em breve você per se produzirá valor, sabendo que o credor virá resgatar a
quantia líquida acrescida dos juros. Contraio, no entanto, empréstimos a juros
de agiotas estrangeiros que são invisíveis, porque, na real, inexistem como
pessoa física. Credores que não falam minha língua, mas que são hábeis nos
sacramentos do culto ao deus universal, o dinheiro.
Mas
não se trata tanto de dívida aqui, e sim de “dívidas mais rápidas que meus
olhos”, “dívidas galopantes”, cartas que chegam “uma atrás da outra”, você que, queira ou não, “sempre paga o que
deve”, de uma maneira ou de outra, com imposto ou com peitinho. Importa pouco o
consumo, é do homem consumir aquilo que toca. Interessa a dívida derivada da
transação que no lugar de saldar o juro, sustenta não só a mesa do agiota, como
provê uma ética do consumo. Alguém diria, eis um atributo constititutivo do
sistema de crédito: juros que “o país mais rico do mundo não bastava para
saldar”; ética do consumo a qual melhor caberia chamarmos de lei do consumo. Nietzsche pensa: “apenas
o que não cessa de causar dor fica na
memória”, logo a memória da lei em questão não passa por contratos mas
cicatrizes.
ninguém vai te
amar
tanto quanto o
seu credor
o pai já não
sabe quem é
o cachorro
morreu
o filho mordeu
os amigos
e quando ele sai
para
passear com o
bicho
sente a corda
apertar
em torno do
pescoço
é o teu nome
que ele sussurra
com teu nome
que
ele engasga
Poderia
o sofrimento ser compensação para o resgate da dívida? Ou, nos termos do
genealogista, pode a culpa ser compensação para saldar a culpa? Se dissermos
que não há lugar pra expiação da culpa no capitalismo, teríamos o dever de
admitir um masoquismo estrutural do homem. O certo é que erige-se um verdadeiro
deus do conceito moral de culpa, e que na forma burguesa de fruição da vida, a
culpa cristã, culpa esta que deriva do ódio à vida, passou a ser calculada em
termos de dívida.

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