sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O que tem feito, Pedro Rocha?


“Heyk, o computador tá um pouco confuso pra organizar os poemas, me passa seu endereço e envio pra você pelo correio.” Gostei. Receberia uma carta de um poeta que mora na mesma cidade que eu. Chegou, mas não pelo correio. Pedro levou os poemas em um envelope ao morro da Conceição no último sábado, falaríamos poemas n’A Mesa. “Heyk, o correio me mandou entregar pessoalmente. As filas estão imensas, porque, segundo disseram, agora tudo se faz no correio.” O envelope tinha meu endereço e o dele. Três folhas datilografadas e carimbadas, três poemas, um deles batido só com as teclas da máquina, com força, sem tinta, cada letra marcando e quase furando o papel.
“Quer mexer com o espaço branco do poema? Procura o Pedro Rocha!” Me disse o Guilherme Zarvos em 2007. Pouco depois vi o livro 11, estreia do Pedro, de 2002, na Azougue Editorial. E pedi um exemplar ao Sergio Cohn. Desde então, nos encontramos por aí, pensando, confabulando, achando bonito. Veio Chão inquieto (7letras, 2010), ele e Ericson tinham lançado seus livros juntos. Ericson. Experiência do calor (Lábia gentil, 2014) corre por dentro dessa morte, que Pedro e muitos outros sentiram na pele.
Figura histórica da primeira fase do CEP 20.000, o poeta manda correspondência, gira mimeógrafo, bate máquina, fez a Cartonera Caraatapa e também edita, junto com Pedro Lago, o selo Lábia Gentil, da editora Dantes.
Fique com três poemas e os respectivos comentários do próprio autor sobre cada um deles. Um dos poemas foi um pequeno terrorismo feito no instagram; outro, se transforma, traduzindo-se, em poema objeto; e o último, o tal feito só com a força, sem a tinta, glosa sobre quando o poeta percebe que algumas coisas o poema não salva. No fim, sem responder à pergunta, Pedro contou, com poemas e parênteses, o que tem feito.

Heyk Pimenta 

Ação sem título

            Um Poema
                        cabe
                         abre
                    invade
            qualquer plataforma

pois é ele quem se suporta

            ele se apóia em
            toda superfície
                e mesmo em
                  nenhuma

Quanto mais estranha
          o poema aranha
                        tece sua
                               web

 quão maior o
            avesso

o poema atravessa

como nessa
           fresta de possível

Tá tudo indo
do jeito que dá

mas ele está sempre ali
                             ele tá lá

pode ser duro de
                 abrir

mas é a única parada
que não vale
a pena de
              desistir.

(esse poema foi publicado como comentário em algumas fotos de algumas contas do instagram. Eu ia distribuindo os versos, de baixo pra cima, cada um numa foto, para que ficasse inteiro na aba de alerta para o titular da conta.
Fiz isso até que o instagram me mandou uma mensagem avisando que eu não poderia continuar com a minha pesquisa, brincadeira, experimentação, ação... mas tá lá, nalgumas fotos, muitas...)

PALEANTROPÍDEOS & FUTURISMO

            Gostaria de que
             quando for que
                      eu morrer
           
            meus amigos me peguem
                        meus restos
                          e constru-
                                   am
                                      um
                           objeto com
                                     eles

            que meus ossos sejam
                        material de imagem

            e que fosse isso cedo

(esse poema está, nesse momento, tentando resolver um problema de comunicação e de linguagem e de continuação. Alguns amigos poetas se dispuseram à tarefa de traduzi-lo para seus idiomas estrangeiros, tentando guardar o problema, conversar a dificuldade de pôr na norma um pensamento objeto. O pensamento é antes de ser texto, um objeto prenhe de subjetividade)

     aquele corpo
                calado

   O MAR POR DENTRO
            aquele      cacto

   O MAR POR DENTRO

  vamos à praia criança

   O MAR POR DENTRO

deitado à beira mar

   O MAR POR DENTRO

a mão de onda tenta
                        ainda
     despertar o menino

   O MAR POR DENTRO

passa-lhe suave pelo
                        corpo

   O MAR POR DENTRO

seus trejeitos de
                        água
despertá-lo de onde?
   a onda não sabe

   O MAR DENTRO

(esse poema forçoso, tentando ser algum fazer diante de um mundo de geste em deslocamento. Tentando estender uma mão, criar um trecho de terra, de ajuda, de qualquer coisa, gesto, justo, junto... e não conseguindo!
Não há como resolver algumas coisas num poema, ou me sentiria muito estranho, construindo, escrevendo um bom poema motivado por essa realidade.
Fica algo que não sei nomear. O esforço. A incompetência. Constatação.
O pouco que parece. Esse poeta não serve pra tudo.)

Um comentário:

  1. Um orgulho e uma borboleta no meu coração, uma aranha, talvez, escalando minha garganta e uma alegria se derretendo por toda eu.

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