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quarta-feira, 8 de julho de 2015

"Matadouro", poema de Leonardo Marona

agora tomo banho, me arrumo,
aparo os cabelos nas orelhas
e os bigodes de leão marinho,
pois hoje vou ao matadouro.
no matadouro pessoas tecem
opiniões relevantes sobre assuntos
concluídos, os matadores de mim
leem de tudo e sorriem frios.
são simpáticos, mas é possível
também imaginá-los delatando
alguém por uma bolsa ao mérito.
são charmosos e pagam bebidas,
amam com mel de abelha e foices,
enquanto afiam solidárias adagas
e notam a perfeita circunferência
dos pescoços de suas vítimas.
é acima de tudo no matadouro
onde a vida e o sangue flutuam
em curtos vapores de humor,
onde compartilhamos moscas
por dentro dos olhos virados.
falamos as letras, sempre elas,
que, mais que lâminas e balas,
dão polidura ao surto do sangue.
agora pronto, é chegada a hora,
rápidas memórias, como flashes,
alucinam o peito na expectativa
de que a dor seja como um raio,
um corte seco no que inaugura
com vísceras a temporária casa.

Poema escrito pelo autor gaúcho logo antes e logo depois de sua vinda à Oficina, gentilmente cedido para publicação em nosso blog. Confiram o “matadouro” e conheçam o blog do autor de "Óleo das horas dormidas":
http://www.omarona.blogspot.com.br/

terça-feira, 9 de junho de 2015

Marona e o “Óleo das horas dormidas” | Parte II

Os contemporâneos de Marona são gente que morreu tossindo, gente que morreu de frio, todos carcomidos e todos heroicos, não pedem perdão por suas fraquezas. Dylan Thomas, Mandelstam, Jean Genet. A primeira parte de Óleo das horas dormidas traz um guerreiro de cartas e lembranças, está no fim da linha, mas não pode partir. Sabe que tem um ou dois compromissos. Um deles é ser escudeiro dos seus próprios heróis e amigos. Dos primeiros guarda a história, assim como Benjamin sugere que protejamos nossos mortos. Já aos amigos, tudo. “Tenho uma poupança, Heyk. Tudo faltará a você, nada faltará à criança que agora espera.” Disse ele a mim em conversa na cozinha, e diz ele em “sobre a boa amizade”:

            estarei aqui, com os olhos costurados,
            mas você escutará, a cada morto desabado,
            meu coração pigarrear e meus dedos amarelos
            suplicarem por este silêncio de cidade grande
                                                                       (2014, p14)

O outro compromisso também é de escuderia, também é com as crianças – uma pequena heroína nasce quando o poeta já não esperava precisar duelar:
           
            mas não te preocupes, pequena, que agora tudo
            pareça insuficiente de sentidos, afinal és pequena
            demais, mas não te preocupes, mesmo aos trinta
            continuarás pequena para tais questões, e é só
            por ti que eu jamais aceitarei novamente alguém
            que diga: morreu o último romântico – estarei vivo
            e através de mim tu viverás por mais cem anos.
                                                                       (2014, p15)

Assim como compartilha com seus ícones tuberculosos o ethos, Marona também canta como eles. É altíssima a carga imagética dos poemas, tal como é em Ginsberg ou Roberto Piva. E é interessante que dificilmente as imagens apareçam para facilitar os poemas: elas são o seu ambiente, são o que dá caldo aos depoimentos que aqui sangram, quase sempre sangram. Elas não são transformações dos personagens e das paisagens, não são o absurdo vindo de seu mundo desconhecido que age sobre a vida do poeta. No mais das vezes são metáforas, um “como se”. O poeta ama os erros “como o pai distante ama o filho enforcado” (p12), e ele sua “feito um porco príncipe”. (p10) O que de fato acontece nos poemas, na primeira parte do livro, é a conversa. Léo quer dizer o que tem pensado, explicar que sempre poderá nos salvar, apesar de sentir-se já sufocado com o elmo. E as imagens são os ataques súbitos, são para não esquecermos que essa conversa é conduzida com lira e víscera. Mas ele veio para nos contar, e ele narra. Forte mesmo é a narrativa. Ela se conecta durante os textos através da reincidência de algumas palavras: os “olhos costurados” voltam, os “gregos” voltam, os “dentes” voltam, dão fios para nos segurarmos enquanto corremos atrás do poeta.


Heyk Pimenta

***

"uma trégua"
(publicado em  l’amore no, p.72, 7letras: 2011)

por favor não cuide
do seu amor, deixe-o
em paz, do contrário,
transformará em ódio
a pele de cor púrpura.
o que se cuida se mata,
pois abandone seu amor
sob chuva forte, pise,
e faça com que duvidem
de sua força, e queime
sua pele rara, arranque
seus olhos, então cego
ele não verá nada e só
depois ele não será mais
seu amor, ou de alguém:
ele será amor do mundo.
           
não vale a pena falar
(publicado em Óleo das horas dormidas, p20, Oficina Raquel: 2014)

no momento você deve resolver seus dentes e voltar para mim.
as raízes quedaram-se para baixo e penduram nossa infecção.
não vale a pena falar a pena não vale falar uma pena não falar.
acordamos a manhã a dentadas e vestimos a borracha da dor.
não há o que falar não fale o que há o que há não fala falamos.
copio as folhas que se abrem mortas num cata-vento carmesim.
as falhas nossas de cada dia nos dai hoje mas não perdoe nada.
não se pode perdoar o que cobre nossa intenção traumatizada.
das ruínas dos castelos erguemos cartas com furiosas carrancas.
da felicidade apalavrada fizemos um pacto para nossa espera.
nossos medos apavoram a síndrome dos frágeis coelhos pardos.
há belezas vagarosas no entremeio do teu molho para saladas.
e meu suco ralo de humanidade vindoura é doce como a morte.
e mordiscas meu antebraço com a promessa de um despejo feliz.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Stela do Patrocínio | Autora do mês na Oficina

"Eu sei que primeiro a gente vive, vive, vive até cansar de tanto viver, morre.
Até cansar de tanto morrer vira bicho, vira animal.
Eu quero pastar à vontade que nem um camelo.

Reino dos bichos, dos animais é o meu nome."



Stela passou trinta dos seu 56 anos na Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. No início dos anos 2000 Viviane Mosé e a Azougue Editorial publicaram Reino dos bichos e dos animais é o meu nome, compilação de falas de Stela que foram gravadas no hospital. Em 2002 o livro foi finalista do Prêmio Jabuti e transformou-se na ópera Entrevista com Stela do Patrocínio de Lincoln Antonio e atuação de Georgette Fadel. Em 2012 foi lançado o curta "Stela do patrocínio, a mulher que falava coisas", dirigido por Marcio de Andrade, que publicamos acima.
Durante o mês de março dois encontros da Oficina serão dedicados à Stela, o primeiro para a leitura e debate do livro, no dia 25 de março, na rua dias da cruz, 170, terraço do Centro Cultural João Nogueira, o Imperator, no bairro do Méier. E o segundo para trazer convidados que possam alargar as questões em torno dessa poetapaciente, no dia 01 de abril, no espaço de artes És Uma Maluca, rua Teodoro da Silva, 383, na Vila Isabel. Sempre às 19h. Durante esse mês traremos mais publicações sobre nossa autora. Participe, envie material para
oficinaexperimentaldepoesia@gmail.com