sábado, 30 de maio de 2015

Marona e o "Óleo das horas dormidas" | Parte I

(foto de Rita Isadora Pessoa)

Publicado no ano passado, 2014, o quarto livro de Leonardo Marona chamou atenção desde a livraria. Nos excitamos com as imersões psicográficas, geralmente indecifráveis, na sessão de autógrafos. Depois disso, o livro veio mês a mês aos tapetões da Oficina, ganhando nas votações, sempre indo às finais e sendo preterido por esse ou aquele motivo, "mas ele é nosso amigo", "estará sempre aí para conversarmos", "vamos chamar alguém que não esteja sempre pele cidade", "será que brigaremos feio?".
Diferente dos autógrafos, o livro não é hermético ou cifrado. Algo como uma longa conversa é construída nesse Óleo, com diferentes interlocutores, mas intuo que o verdadeiro interlocutor é sempre o mesmo. Marona fala para si.
Os amores, os escritores, sua família, como pode ser uma família depois de tudo, estão presentes, dando enredo, construindo desculpas emocionadíssimas e desesperadas para que essa longa conversa continue. Já que quem fala sozinho é doido, sempre estamos acompanhados.
A voltagem de seus textos, esses depoimentos e apelos, e as imagens que remetem quase sempre a coisas miúdas e degradadas fazem o trem de Marona, um trem velho e sem óleo que tem uma meta tripla: chegar/descarrilar/fundir o motor.
Em 2009, Leonardo publica Pequenas biografias não-autorizadas, com orelha do recém homem morto Antônio Abujamra. O que se anuncia ali, nessa lista telefônica com os nomes das pessoas para quem Léo liga, encontramos nos livros seguintes: “é um sopro/ de soldado ferido./ desordenado, ávido,/ silencioso, firme.” (MARONA 2009 p.20) É assim que começa o poema “chet baker”, um dos biografados, um dos contatos da lista. Mas é de Chet que fala o poema?
Léo canta seus pares. Além do jazzista, encontramos Whitman, Lou Reed, Zé Ramalho, Rilke, Helena Ignez, tantos outros, mas é possível perceber uma linha. Uma espécie de time de desgraçados, cada qual imenso em sua maravilha, que, como Léo, andaram por aí com pouca pena, mas sempre com o coração partido.
Nesse mês de junho, Marona será o autor lido pela Oficina Experimental de Poesia. A cada semana, publicaremos dois textos. Um de um livro seu pregresso, outro do Óleo das horas dormidas. Começamos sempre pelo começo. Quer lê-lo conosco? Peça a seleta que preparamos.


Heyk Pimenta




***



“adeus”
(Pequenas biografias não-autorizadas, 7letras, 2009)

hoje estou
contado dias e horas
com a ligeira impressão
de que me cortaram fora
os dedos da mão.

existe um ônibus
à minha espera
do outro lado
do pensamento.

ouço seu freio-
motor antecipando
uma curva fechada
onde repousa meu
óleo essencial.

pelas curvas
dessa
nova estrada
queria
encontrar
no lugar das
placas
marcas
de pneus gastos

e nas marcas
rastros
do meu amor.

mas ninguém
conhece o que ama.

ama-se
surpreendentemente
como quem acolhe
um tiro.

escombros
(Óleo das horas dormidas, Oficina Raquel, 2014)

se ao menos eu fosse um desses fabricantes de canções de ninar,
eu seria aliviado, quem sabe, da minha dor no intestino delgado,
que de certo é pela tristeza ao ler minhas canções despedaçadas,
e quando as meto no papel a mim serão perfeitas, pouco importa
se a morte se concluiu em gelo da montanha e tinta desperdiçada.

quando as meto no papel pouco importa, sem pé, mão ou cabeça,
elas irão aos olhos sem aviso e, já quase sem ternura, sem licença,
farão dormir a besta dura e sua presença trará quem sabe um riso,
alguma crença, mas suo feito um porco-príncipe, é inútil a crença.

se ao menos eu pudesse fabricar a mais simplória canção de ninar,
ah eu dormiria para sempre, com o riso leve dos que sabem dormir.

mas sou pobre e tenho fome, tenho medo de morrer no longo sono,
nada me resta além de arder em brasa, acordar a canção com fogo,
pois que sou operário de um tempo sem descanso para olhos vivos:
posso apenas contemplar minha criação através de seus escombros.



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