(foto de Rita Isadora Pessoa)
Publicado no ano passado, 2014, o quarto livro de Leonardo Marona chamou atenção desde a livraria. Nos excitamos com as imersões psicográficas,
geralmente indecifráveis, na sessão de autógrafos. Depois disso, o livro veio mês a mês aos tapetões da Oficina, ganhando nas votações, sempre indo às finais e sendo preterido por esse ou aquele motivo, "mas ele é nosso amigo", "estará sempre aí para conversarmos", "vamos chamar alguém que não esteja sempre pele cidade", "será que brigaremos feio?".
Diferente dos autógrafos, o livro não é hermético ou
cifrado. Algo como uma longa conversa é
construída nesse Óleo, com diferentes
interlocutores, mas intuo que o verdadeiro interlocutor é sempre o mesmo. Marona fala para si.
Os amores, os escritores, sua família, como pode ser uma
família depois de tudo, estão presentes, dando enredo, construindo desculpas
emocionadíssimas e desesperadas para que essa longa conversa continue. Já que
quem fala sozinho é doido, sempre estamos acompanhados.
A voltagem de seus textos, esses depoimentos e apelos, e
as imagens que remetem quase sempre a coisas miúdas e degradadas fazem o trem de
Marona, um trem velho e sem óleo que tem uma meta tripla: chegar/descarrilar/fundir
o motor.
Em 2009, Leonardo publica Pequenas biografias não-autorizadas, com orelha do recém homem
morto Antônio Abujamra. O que se anuncia ali, nessa lista telefônica com os
nomes das pessoas para quem Léo liga, encontramos nos livros seguintes: “é um
sopro/ de soldado ferido./ desordenado, ávido,/ silencioso, firme.” (MARONA
2009 p.20) É assim que começa o poema “chet baker”, um dos biografados, um dos
contatos da lista. Mas é de Chet que fala o poema?
Léo canta seus pares. Além do jazzista, encontramos Whitman,
Lou Reed, Zé Ramalho, Rilke, Helena Ignez, tantos outros, mas é possível
perceber uma linha. Uma espécie de time de desgraçados, cada qual imenso em sua
maravilha, que, como Léo, andaram por aí com pouca pena, mas sempre com o coração
partido.
Nesse mês de junho, Marona será o autor lido pela Oficina
Experimental de Poesia. A cada semana, publicaremos dois textos. Um de um livro
seu pregresso, outro do Óleo das horas
dormidas. Começamos sempre pelo começo. Quer lê-lo conosco? Peça a seleta que preparamos.
Heyk Pimenta
***
“adeus”
(Pequenas
biografias não-autorizadas, 7letras, 2009)
hoje estou
contado dias e horas
com a ligeira impressão
de que me cortaram fora
os dedos da mão.
existe um ônibus
à minha espera
do outro lado
do pensamento.
ouço seu freio-
motor antecipando
uma curva fechada
onde repousa meu
óleo essencial.
pelas curvas
dessa
nova estrada
queria
encontrar
no lugar das
placas
marcas
de pneus gastos
e nas marcas
rastros
do meu amor.
mas ninguém
conhece o que ama.
ama-se
surpreendentemente
como quem acolhe
um tiro.
escombros
(Óleo das horas dormidas, Oficina Raquel, 2014)
se ao menos eu fosse um desses fabricantes de canções de
ninar,
eu seria aliviado, quem sabe, da minha dor no intestino
delgado,
que de certo é pela tristeza ao ler minhas canções
despedaçadas,
e quando as meto no papel a mim serão perfeitas, pouco
importa
se a morte se concluiu em gelo da montanha e tinta desperdiçada.
quando as meto no papel pouco importa, sem pé, mão ou
cabeça,
elas irão aos olhos sem aviso e, já quase sem ternura,
sem licença,
farão dormir a besta dura e sua presença trará quem sabe
um riso,
alguma crença, mas suo feito um porco-príncipe, é inútil
a crença.
se ao menos eu pudesse fabricar a mais simplória canção
de ninar,
ah eu dormiria para sempre, com o riso leve dos que sabem
dormir.
mas sou pobre e tenho fome, tenho medo de morrer no longo
sono,
nada me resta além de arder em brasa, acordar a canção
com fogo,
pois que sou operário de um tempo sem descanso para olhos
vivos:
posso apenas contemplar minha criação através de seus
escombros.

Nenhum comentário:
Postar um comentário